sSessão solene realizada nesta terça-feira (21) prestou homenagem aos 15 anos de inauguração do Cruzeiro de Santiago e aos 415 anos do Marco Zero de Fortaleza, o Fortim de Santiago, erguido em 25 de julho de 1604, na Barra do Ceará. A solenidade atendeu o requerimento 0387/2019, de autoria do vereador Jorge Pinheiro (DC).

A sessão foi presidida pelo vereador Jorge Pinheiro, no ato representando o presidente da CMFor, Antônio Henrique (PDT). A mesa solene foi composta por Frei Jesús María López Mauleón, vigário episcopal da região de Nossa Senhora da Assunção; José Carlos Sepúlveda, assessor da Casa Imperial do Brasil e apresentador do programa Terça Livre; Verônica Barbazan, ex-cônsul honoraria da Espanha em Fortaleza e professora aposentada do curso de Letras da Uece; professor Adauto Leitão, historiador; Adriano Duarte Vieira, presidente do movimento Endireita Fortaleza, Aloísio Gurgel do Amaral Neto, diretor da Associação Nacional dos Conservadores do Ceará e diretor jurídico do Endireita Fortaleza.

Em sua saudação aos presentes, o vereador Jorge Pinheiro destacou que em abril se comemora 293 anos da cidade, mas é preciso que se diga que essa comemoração é de 1726, quando veio um decreto da coroa portuguesa que elevou o povoado de Fortaleza à condição de vila. “Foi escolhida essa data para o aniversário da cidade. Perdemos um tanto de anos de história ai. De 1604 quando tivemos o marco zero, que foi o início da cidade, são 123 anos a mais. Essa noite visa ser um marco para retomarmos as discussões sobre a verdadeira data do aniversário de Fortaleza. Não podemos abdicar da nossa história”, disse.

Segundo o vereador, o cearense pouco sabe de sua história. “Eu mesmo não sabia como aconteceu a invasão dos holandeses no Ceará e que temos origem mariana. A primeira caminhada de Maria foi feita em 1654. A imagem veio do Fortim de Santiago para o Forte Schoonenborch. Hoje demos entrada num projeto de lei que altera a data do aniversário de Fortaleza de 13 de abril para 25 de junho, para resgatarmos essa parte da história que está sendo esquecida. O fortalezense precisa conhecer a história da cidade para ter o sentimento de pertencimento, pois assim poderá cuidar mais e torná-la cidade da paz.”

A palavra foi dada à professora Verônica Barbazan, “sou filha de galego e fui à Galícia para aprender espanhol. Ganhei uma bolsa para estudar galego e fiquei mais um mês. Quando retornei vim com uma semente e plantei na UECE. Lá consegui implantar duas disciplinas de 60 horas, de língua e de literatura galega. Temos muitas palavras que se originam do galego. Graças ao caminho de Santiago, que a literatura saia do sul da França até àquela região. A língua Galego Português foi a mais importante da península ibérica”, frisou.

Falou ainda sobre o trabalho feito com a população da Barra, principalmente crianças e adolescentes que aprenderam espanhol. “O mais gratificante era saber que meu trabalho, ninguém nunca poderia roubar deles. Foi uma luta, quando o monumento chegou, tivemos que pagar imposto para tirá-lo do Porto, mas enfim conseguimos” concluiu.

Em seguida falou o Frei Jesús María López Mauleón, pároco da Barra do Ceará. “É um prazer saber que os primeiros passos de Fortaleza foram dados pelos portugueses galegos. É uma honra para mim estar aqui. Quem sabe teremos futuramente uma Igreja ou um local que dê destaque o cruzeiro de Santiago?” frisou.

José Carlos Sepúlveda, foi o orador seguinte. Ele afirmou estar na Casa em duas condições, como grande amigo de Fortaleza e como representante da Casa Imperial do Brasil. “É uma alegria ver o esforço dessa sessão que não é apenas simbólica, mas para resgatar a verdadeira história do Ceará. É importante que esse resgate ocorra na Câmara, porque as Câmaras eram as grandes riquezas e expressões da verdadeira sociedade orgânica que havia no Brasil e com a qual foram expandidos as tradições locais. E para quem representa a Casa Imperial do Brasil, é uma grande alegria. Aqui está sendo dado um passo decisivo para resgatar a verdadeira história de Fortaleza”, ressaltou.

Adriano Duarte Vieira, presidente do movimento Endireita Fortaleza, pontuou que movimento vem trabalhando pelo resgate do Brasil. “Nós já abandonamos a polaridade entre esquerda e direita, pois isso só atrapalha. Mantivemos esse nome, porque tem o significado de aprumar, de endireitar. Isso que estamos vendo hoje, a história de Fortaleza sendo resgatada e dado real valor ao sangue, suor e lágrimas dos que primeiro chegaram aqui. Como não apoiar uma decisão tão nobre do vereador e de todos aqueles que tem interesse na construção, conservação, proteção e na reforma responsável da nossa cidade”, asseverou.

Por fim, se pronunciou Aloísio Gurgel do Amaral Neto. “Nós assistimos com uma certa preocupação algumas movimentações institucionais e da imprensa para comemorar o aniversário de Fortaleza, que despreza 122 anos de nossa história. Mas encontramos aqui uma muralha grande, forte e devota pela verdade e isso nos alegrou, que é o vereador Jorge Pinheiro. Mas o que vemos é o povo sendo desprezado pelos seus próprios representantes. Nossa história é irrenunciável. Nesse sentido em parabenizo ao vereador Jorge Pinheiro e ao professor Adauto Leitão.”

Em seguida, o vereador Jorge Pinheiro fez a entrega de certificados em homenagem aos 15 anos de inauguração do Cruzeiro de Santiago e aos 415 anos do Marco Zero de Fortaleza, para as seguintes personalidades: Frei Jesús María López Mauleón; professor e historiador Adauto Leitão de Araújo Júnior; professora Verônica Carvalho Barbazan; irmã Terezinha Luíza Prese; Francisco Hildo Carlos Pereira e Maria de Fátima Lino, representando os fundadores da Comunidade Santiago.

Em nome dos homenageados se pronunciou o professor Adauto Leitão. “Minha grande alegria de dividir a homenagem com Hildo e Maria de Fátima, que representam a sétima comunidade da Barra do Ceará. A irmã Terezinha recebeu essa homenagem por conta dos alunos que se esforçaram para conhecer um pouco da história do seu bairro. Viver naquele pedacinho de chão, naquela praia que tem tanta história é uma felicidade para aquelas pessoas. Na lápide do cruzeiro está bem fixo, Marco Zero de Fortaleza. O Fortim de Santiago tem 15 metros e 11 toneladas e não nos foi dado de graça. Outro momento da história esquecida foi que em 1611 pessoas da raça negra desembarcaram trazidos por Pero de Sousa na Barra. Eles entraram para formar um povoado e não para ser escravos. Por isso o DNA brasileiro é ibérico, nativo e africano.

“Não se pode descartar a formação da nossa gente. Um bairro que tem tanta história, mas que precisa ter mais voz na Câmara. Uma região que construiu a herança de Fortaleza. Martins Soares Moreno tinha uma característica tão boa e pacifica que vislumbrou várias raças vivendo harmonicamente. Quando os holandeses vieram aqui quiseram oprimir aquele povo já miscigenado. A imagem de Nossa Senhora da Assunção chegou em 1622 e foi guardada pelo povo, quando da invasão dos holandeses, que queriam queimar a imagem como fizeram com a Cruz de Santiago, pois eram calvinistas”, relatou.

Dando continuidade a historicidade, Leitão frisou que quem deu o nome de Fortaleza foi Rei Felipe II, da Espanha, que nomeou o capitão mor para Fortaleza do Ceará, que originalmente era na Barra. É curioso. Quem vê a heráldica da 10ª Região Militar tem a Cruz de Santiago, que representa a força e a luta militar e o desenho do Forte de Santiago que foi o primeiro. O marco zero do Ceará tem que ser respeitado, como ocorre no Recife, São Paulo. Eu me orgulho de ter visto na Barra o prefeito Evandro Aires de Moura, que tinha como secretaria a dona Lirice Porto, apoiar uma representação teatral da chegada dos portugueses à Barra do Ceará. Tivemos essa festa na década de 60 e 70. O ex-prefeito Juraci Magalhães que amava a Barra do Ceará comemorava sempre o aniversário do bairro como referência ao marco zero e aos primeiros que chegaram. Infelizmente tivemos uma mudança de entendimento e tiraram 122 anos. Na votação alguns foram omissos e outros covardes. Esperamos que nessa nova votação, a nossa verdadeira história seja retomada”, concluiu.

História

Há 415 anos era fundado o Fortim de Santiago, na atual Barra do Ceará. Em 1603, Pero Coelho de Sousa, primeiro europeu a tentar colonizar o Ceará, recebeu o título de capitão-mor e, com o objetivo de abrir caminhos para o Maranhão, estabeleceu um posto militar à margem do rio Ceará, na época chamado Fortim de São Tiago. Pero Coelho saiu da região em razão da seca alguns anos depois.

Entre 1611 e 1612 Martim Soares Moreno retorna ao Ceará como capitão-mor e ergue o forte São Sebastião, onde antes foi edificado o São Tiago. O forte foi tomado em 1637 pelos holandeses. Em 1649, holandeses tentaram ocupar a área sob comando de Matias Beck. No Mucuripe, em abril de 1649, ele instalou um forte próximo ao Pajeú. O local foi chamado de Schoonenborch.

Em 1654, com a expulsão dos holandeses de Recife, o forte foi abandonado. Tropas sob o comando de Álvaro de Azevedo Barreto tomaram o local em 1654, que passou a se chamar Nossa Senhora da Assunção. Em 13 de fevereiro de 1699, a Coroa Portuguesa criou a vila de São José de Ribamar. Passou por Aquiraz, pelo Pajeú e pelo rio Ceará, até que, em junho de 1713, a vila de São José de Ribamar foi instalada em Aquiraz.

Após ataque à vila, os sobreviventes buscam abrigo no forte do riacho Pajeú. Em 13 de abril de 1726, foi instalada a segunda vila. As duas reivindicavam o nome São José de Ribamar. Em 1728, ordem régia manteve as duas. Em 1799, o Ceará foi desmembrado de Pernambuco e Fortaleza foi confirmada Capital.

Fotos: André Lima