Especialistas orientam sobre como lidar com os gatilhos emocionais

13/04/2023 - Câmara Municipal de Fortaleza

O gatilho emocional é uma realidade que afeta a grande maioria das pessoas, e que pode ser disparada por uma palavra, um cheiro, uma música, um tom de voz.

As redes sociais podem acionar os gatilhos emocionais? Quais os seus? Essas são duas perguntas que estão muito na moda. Identificar os gatilhos é uma boa forma de lidar com eles. Especialistas orientam que exercícios de autoconhecimento podem ser essenciais para manter a boa saúde mental. Em posts das redes sociais é comum alertas sobre conteúdos sensíveis que podem provocar emoções negativas. Mas o assunto vai além das redes sociais. É uma realidade que afeta a grande maioria das pessoas, e que pode ser disparada por uma palavra, um cheiro, uma música, um tom de voz.

As emoções represadas que vem à tona podem provocar reações físicas, como tremores, falta de ar, lágrimas ou sorrisos, respostas ríspidas a gritos ou mesmo uma agressão. Para a psiquiatra e professora da Universidade Estadual do Ceará (UFC), Lia Sanders, os gatilhos emocionais são situações que desencadeiam uma reação emocional intensa ou até mesmo excessiva em nós. “Estamos expostos a vários estímulos virtuais que podem funcionar como gatilhos emocionais, pode ser um post em uma rede social, um vídeo no WhatsApp. As redes sociais amplificam as interações e nos colocam diante de inúmeros estímulos, amplificados por algoritmos que reconhecem os nossos gostos e fraquezas. Estamos ainda sujeitos ao efeito bolha dos pequenos grupos virtuais, que intensifica a exposição a determinadas temáticas” observa.

Psiquiatra Lia Sanders

Ela destaca que a pandemia levou a uma piora da saúde mental, de um modo geral.  Entende que os índices de ansiedade e depressão já estavam bastante elevados, assim como o uso das redes sociais e a pandemia deslocou ainda mais as pessoas do convívio social real para o virtual.  Para a professora a chave para lidar com esses gatilhos é se libertar deles e observar as próprias reações. “Quem estiver atento a si, pode encontrar nos gatilhos uma ótima pista para os seus conflitos internos, questões mal resolvidas das quais muitas vezes não se tem consciência. É preciso prestar mais atenção a si que ao mar de informações da internet”, ressalta.

Ativação emocional

A psicóloga, psicoterapeuta, mestra e doutora em Psicologia, Isadora Dias avalia que o gatilho emocional é um termo que se popularizou para falar de um fenômeno de ativação emocional desconfortável. “Na prática, nosso corpo está sempre sentindo emoções, mas nem sempre nos damos conta delas, e essas emoções são acionadas continuamente pelos nossos sentidos, pelo nosso pensamento e pelo contexto. Um cheiro, uma palavra, uma experiência e até uma outra emoção prévia podem acionar uma onda emocional,” frisa.

Psicóloga Isadora Dias

Na sua visão, é mais fácil perceber ativações emocionais desagradáveis, pelo desconforto que trazem, principalmente se aquela emoção nos lembra alguma vivência forte ou traumática.  Ela argumenta que vivemos numa sociedade ainda carente de educação emocional, onde se privilegia constantemente a razão em lugar da emoção. “Mas somos feitos de emoção também, então o que acontece? Pais que não aprenderam a conviver e a regular suas próprias emoções, não puderam ensinar aos filhos, inevitavelmente transmitem traumas e as novas gerações seguem não sabendo nomear ou lidar com o que sentem,” afirma.

E continua: “na escola, se aprende conteúdos racionais diversos, mas não há lugar para educação emocional. Por outro lado, cada vez mais nas redes sociais se dissemina conhecimentos relacionados a emoções, traumas, violências, finalmente dando nome a coisas que são vividas e sofridas há muito tempo, mas que não estávamos nos permitindo ver e viver. Isso acontece porque quando damos nome e visibilidade às emoções elas parecem maiores e às vezes crescem mesmo. E isso não é necessariamente ruim”, comenta.

Ela diz que não pode dizer com certeza que a pandemia tenha desencadeado mais casos de ansiedade ou depressão causados por gatilhos, mas entende que situações de doença, confinamento, perdas, medo, sedentarismo, má alimentação, dificuldades financeiras, convivência muito intensa com familiares em espaço restrito, mudanças bruscas no modo de vida, tenha potencial de traumatizar ou fazer vir à tona antigos traumas e sofrimentos.

Isadora Dias diz que não gosta do termo “gatilho” porque lhe parece uma arma que dispara e não tem mais jeito, “aprendi que o termo mais preciso é acionamento ou ativação de uma onda ou crise emocional. Assim, precisamos aprender a viver em uma sociedade que não só pensa, mas também sente. Que a gente possa conhecer nossa dinâmica emocional, aquilo que nos aciona, saber lidar com as ondas emocionais quando elas vêm, saber dar limites e não nos colocarmos em situações que propiciem crises desnecessárias e conseguir lidar com as emoções a ponto de sentir a maravilha que é permitir ter uma rica vida emocional. Deixar que cada emoção circule pelo corpo, sem nos tornarmos escravos delas. Isso se chama de regulação emocional e só ensinada por um outro ser humano: em casa, em grupos de confiança e com profissionais habilitados pra isso”, argumenta.

Fotos: PIxabay/Holger Langmaier e arquivos pessoais