Câmara outorga a Medalha de Defesa dos Direitos Humanos Dom Hélder Câmara à Nágela Maria Andrade Otoch

10/06/2022 - Marcelo Raulino

A homenageada está a frente de um projeto humanitário no Morro Santa Teresinha que auxilia familias em situação de risco social, que tem o objetivo de aliviar a dor e a fome das crianças, das grávidas, dos idosos e dos doentes do “morro”.

A Câmara Municipal de Fortaleza realizou Sessão Solene, nesta sexta-feira (10/06), para a outorga da Medalha em Defesa dos Direitos Humanos Dom Hélder Câmara, à senhora Nágela Maria Andrade Otoch, pelos relevantes serviços na área dos direitos humanos, assim como o histórico profissional. A comenda foi proposta através do Requerimento 1273/2022, de autoria do vereador Danilo Lopes (Podemos), aprovado por unanimidade pelo plenário da Casa Legislativa.

A solenidade foi presidida pelo autor do requerimento, vereador Danilo Lopes, em nome do presidente da Câmara Municipal de Fortaleza, Antônio Henrique (PDT). A mesa de honra foi composta por Fernando Dantas, representando a Associação Anjo Rafael e Adler Pinheiro ex-vereador de Fortaleza e a homenageada.

“Me sinto confortável na entrega de Medalhas que um vereador tem direito de outorgar, pois tenho entregue a quem de fato tenho conhecimento e convivência. Dra Nágela conheci em 1992. Me formei em Odontologia, sou professor da Unifor e Unichristus. Em 1989 tinha um consultório na Domingos Olímpio. Parou uma pessoa lá de nome Maria José que me disse que trabalhava numa empresa Esplanord. No ano seguinte larguei tudo e fui fazer um curso de especialização em São Paulo. Ao concluir voltei para Fortaleza e tive que recomeçar tudo de novo. Tentando me estabelecer em outro consultório depois de cinco anos de formado e de repente aparece novamente Maria José.

Perguntei se a fábrica que ela trabalhava não tinha interesse de ter um consultório odontológico lá. El disse que conversaria com os donos. Dias depois ela disse que eu poderia ir lá falar com a direção. Quando cheguei lá, já tinha uma sala para receber um profissional. Eles estavam esperando por mim. E me levaram para conhecer a médica, que era a Dra. Nágela. Durante 7 anos estive lá e fiz muitos amigos. Tudo na vida é fruto de oportunidades e graças a Deus tenho aproveitado estas quando aparecem. Na campanha para vereador pedi para as pessoas votarem em que é diferente que não é a favor da mesmice da política. Sou independente, voto com minha consciência e trabalho pela vida dos que mais precisam. Dra. Nágela é pessoa amiga, leva a vida com doçura e com o sorriso sempre no rosto. Então como vereador tenho essa oportunidade de homenagear uma pessoa como a senhora que Deus colocou no mundo para servir. Parabéns!”, ressaltou.

Em seguida foi apresentado um vídeo em homenagem a Dra. Nágela, momento em que vários convidados entregaram rosas vermelhas à homenageada. O orador seguinte foi Fernando Dantas, da Associação São Rafael. “As rosas nos fazem lembrar de Santa Teresinha, que nos ensina que os pequenos milagres importam e que nos pequenos detalhes Deus se faz presente em nossa vida. O que pude aprender com nossa homenageada é seu legado, que é aquilo que na curta passagem da vida deixa para as pessoas. É um exemplo e uma referência de vida para todos nós,” disse.

Maria Ionê, moradora da comunidade das placas, área pastoral da Igreja Santa Teresinha, onde a Dra. Nágela faz um trabalho voluntário leu uma mensagem em sua homenagem. Ato contínuo foi feita a entrega da Medalha e do certificado à homenageada, que logo após fez seus agradecimentos. “Realmente é uma grande honra essa homenagem, mesmo inesperada. Fiquei em choque quando disseram que deveria estar aqui. Mas fiquei feliz pois fui criada por uma família católica e antes de mais nada sou cristã. Minha avó cuidava algumas pessoas que vinham do interior e na igreja comecei a cuidar também das pessoas. Nesse breve momento que é a vida, sempre pensei que podemos fazer mais. Nunca gostei de lembrar do irmão apenas no Natal, na Páscoa, isso é um pouco egoísta. As vezes damos algo que nem nos faz pauta” pontuou.

Disse que é pediatra e médica do trabalho, porque Deus a colocou nessa área, que ela sequer gostava. “Mas vi que nessa área posso fazer muito pelas pessoas, nesse mundo que vivemos. Um dia conversando com uma tia que já se foi, ela disse que ia me apresentar um padre, que era o Padre Fernando, que estava começando o trabalho no Morro Santa Teresinha. Na época estava sendo voluntária numa creche no Eusébio. Quando fui na paróquia vi muita miséria no seu entorno. Era fim da tarde e o sol bateu em cima de uma frase de Santa Teresinha e eu nem era devota dela, mas a frase tocou meu coração. Nos dias que se seguiram sai do Eusébio e fui para o Morro Santa Teresinha, atender numa sala sem estrutura nenhuma, mas com o tempo fomos conquistando espaços e apoios”, asseverou.

Disse que se pudesse agradecer a alguém por sua trajetória, agradeceria a Deus, mas afirmou que a Medalha Dom Hélder Câmara pertence a cada pessoa da comunidade e cada voluntário que a auxiliam nesse trabalho em prol dos mais carentes. “Fiquei pensando quem daria continuidade a esse trabalho depois que eu não estiver mais aqui. Mas graças a Deus vem chegando pessoas, alunas de medicina que tem abraçado essa causa. Peço que cada um reflita uma coisa: Temos mais de 100 famílias atendidas muitas dotadas e um grupo de gestantes, que precisa de ajuda. Precisamos do apoio de cada um de vocês ao projeto do Morro Santa Teresinha. O projeto precisa continuar e não é só doar coisas, mas participar e acompanhar. Nós nunca vamos acabar com a miséria, com o sofrimento, mas podemos atenuar a situação de muitos. Agradeço a todos vocês que estão aqui, que continuem nos apoiando e divulgando nosso projeto”, finalizou.

HISTÓRICO

Nágela Maria Andrade Otoch, filha de Geraldo e Lily Otoch, vem da união de duas famílias católicas e queridas. Uma, imigrante libanesa. A outra, tradicional do sertão central. Certamente, como primeira filha do casal e também primeira neta na família, grandes responsabilidades e expectativas a acompanhavam.

Naquela época em que a vida não era nada fácil, era necessário ir além. Buscar inspiração e seguir um sonho. Essa grande inspiração profissional para ela, foi seu tio Fahad Otoch, que à época era médico. Ali, ela viu uma possibilidade de realizar algo que antes parecia distante. Nascida e criada em Fortaleza, ela ainda não sabia, mas iria usar muito do amor que jurou ao concluir sua faculdade de Medicina na UFC em 1979: “Juro solenemente que ao exercer a arte de curar, mostrar-me-ei sempre fiel aos preceitos da honestidade, da caridade e da ciência…”.

Após sua conclusão na universidade, especializou-se em Pediatria e medicina do trabalho. Fez um currículo lindo. Casou-se, tem 3 filhos, 6 netos e segue ativamente sua vida na busca do curar. Dedicou muitos anos de trabalho em posto de saúde, hospitais, emergências pediátricas, obras sociais. Nos últimos anos, avançou ainda mais e o que era um desejo de mudança, começou a se tornar realidade com o projeto no Morro Santa Terezinha, no Vicente Pinzón. Lá, onde sempre ia às missas na igreja de Santa Terezinha, com o Padre Fernando Reis, teve início um trabalho voluntário de atendimento às crianças aos domingos.

Esse atendimento na igreja passou a ser diário, que passou a ir até ao local onde vivem tantos desprovidos de saúde, comida, lazer. E isso a tocou profundamente. Virou uma urgência, não apenas um sonho. Ela passou a dedicar seus dias, tardes e noites a trabalhar e procurar o que fosse possível para levar o que pudesse para aliviar a dor e fome das crianças, das grávidas, dos idosos e dos doentes do “morro”, como ela chama tão carinhosamente.

O projeto ganhou amigos, comida, roupa, médicos, alegria. Mudou e muda muitos dias daquela sofrida comunidade, com o projeto “Adote uma família” e “Gestantes”. Durante os mais de 40 anos de vida profissional, todos foram dedicados com a delicadeza do amor ao próximo e o entendimento que o servir ao outro vai além, muito além da medicina. Como ela bem gosta de citar “quem não vive pra servir, não serve para viver”. Se pessoas podem ser lugares para a gente, só em estarmos ao seu lado, sentimos que estamos no nosso lugar no mundo, a Dra Nágela é assim: como um lugar de paz, acolhimento, cheio de Deus. Aonde ela vai, ela leva também essas provisões de alegria, doçura e conforto. Temos claramente a certeza que “nada é pequeno, se feito com amor”.

Fotos: André Lima