Crescimento da obesidade infantil no Brasil preocupa especialistas

29/03/2022 - Câmara Municipal de Fortaleza

Estudo divulgado pelo Ministério da Saúde no ano passado estimou que 6,4 milhões e crianças tem excesso de peso no Brasil.

O Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (Enani-2019), coordenado pelo Instituto de Nutrição Josué de Castro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mostrou que uma em cada 10 crianças brasileiras de até 5 anos está com o peso acima do ideal: são 7% com sobrepeso e 3% já com obesidade. A situação atual, para alguns especialistas, pode estar muito pior, pois o recorte é de 2019, período anterior a pandemia de covid-19, quando houve mudanças na rotina de alimentação, atividades físicas e idas a médicos.

Os dados do Estudo anterior, de 2006, indicavam que 6,6% das crianças até 5 anos estavam com excesso de peso número bem menor que o do estudo mais recente. Outro estudo divulgado pelo Ministério da Saúde no ano passado estimou que 6,4 milhões e crianças tem excesso de peso no Brasil e 3,1 milhões são consideradas obesas. O estudo identificou uma prevalência maior excesso de peso entre as crianças menores, de até 23 meses de idade, com 23% delas acima do peso.

De acordo com o Enani-2019, entre as famílias entrevistadas havia prevalência do consumo de alimentos ultraprocessados entre as crianças. Esse tipo de alimento está presente na dieta de  93% entre crianças de 24 a 59 meses e 80,5% entre crianças de 6 a 23 meses. Já o consumo de bebidas adoçadas atingiu 24,5% dos pequenos entre 6 a 23 meses, 37,7% dos de 18 a 23 meses e 50,3% das crianças de 24 a 59 meses.

Em outubro de 2022, entrará em vigor novo padrão de rotulagem de alimentos e bebidas industrializadas aprovado pela Anvisa em 2020. As embalagens deverão apresentar um selo frontal com símbolo de lupa para informar sobre altos teores de açúcar, gordura e sódio.

Amamentação exclusiva

Para a nutricionista materno infantil Daiana Nobre, uma das principais orientações para a prevenção da obesidade infantil, é priorizar a amamentação exclusiva dos bebês até os seis meses. Também diz ser muito importante não ofertar açúcar (incluindo alimentos e bebidas  que contém açúcar nos ingredientes) até os dois anos, e evitar que as crianças consumam alimentos ultraprocessados, “não se deve ofertar suco antes de um ano, ofertar a quantidade ideal de água, manter a alimentação saudável fora de casa e evitar o uso prolongado de telas de celular ou TV, pois contribuem para o sedentarismo”, ressalta.

Para ela, as principais causas da obesidade infantil são o sedentarismo, devido os avanços tecnológicos as crianças passam grande parte do seu tempo em telas, seja para jogar, assistir ou estudar, diminuindo o gasto energético; o exemplo da própria família, que muitas vezes não pratica atividade física e tem hábitos pouco saudáveis e a rotina corrida junto a falta de planejamento, muitas vezes atrapalham o consumo de alimentos in natura, preparados em casa, aumentando o consumo de produtos industrializados, ricos em sódio, conservantes e aditivos.

Conscientização

Já a nutricionista e educadora física Marília Cabral observa que é preciso conscientização, “acredito que caiu no mito popular de que as crianças podem comer tudo, livremente. Como nutricionista não vejo isso de uma forma saudável. As crianças devem aprender a se alimentar bem e fazer boas escolhas e comer de tudo, porém com moderação. O que temos são pais que não se alimentam de forma saudável e isso acaba refletindo na rotina alimentar da casa e hábitos da criança. E essas se tornarão adultos que não saberão se alimentar e irão refletir esse comportamento em seus filhos e netos, assim formando uma cadeia”, avalia.

Para Marília, a vida corrida e a busca pela praticidade fez com que esse quadro aumentasse. Assim as pessoas acabam consumindo alimentos empacotados, com maior durabilidade, cheios de açúcares, gorduras saturadas, corantes, xaropes, produtos que fazem mal ao  corpo, que realçam o sabor e não dá saciedade. “A indústria investe em produtos com pacotes coloridos, com personagens do momento (mídia) para conquistar o desejo da criança pelo aquele ‘alimento’ e os pais acabam comprando para satisfazer a vontade dos filhos (muitas vez como uma forma de agradar, já que passam mais tempo trabalhando e não conseguem dar atenção desejada). Entra aí o fator emocional”, observa.

Outro fator que influencia nesse aumento da obesidade, segundo a Marília é o uso de televisão e jogos eletrônicos. Ela pontua que a maioria das crianças hoje não brincam de correr, pular, com isso o gasto energético se tornou baixo. “Passam muito tempo sentadas e/ou deitadas. Ficam mais em casa e a pandemia piorou mais ainda esse quadro. O resultado é que poderão se tornar adultos preguiçosos, com dificuldades de realizar atividades físicas. Tem também o fato de as escolas não levarem mais tão a sério as aulas de educação física, pois hoje em dia não é obrigatório, qualquer atestado a criança já é liberada da aula. Muitas vezes esse seria o único contato com exercício físico. Em resumo, para solucionar esse problema da obesidade temos que quebrar esse ciclo de comportamento entre pais, filhos, avós e demais familiares, para que, pelo exemplo, as crianças possam crescer saudáveis”, conclui.

Onde tratar

Em Fortaleza, o Centro de Tratamento de Transtornos Alimentares (Cetrata) atua como projeto de extensão da Universidade Federal do Ceará (UFC), e funciona no ambulatório de Saúde Mental do Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC). O Centro atende pessoas de ambos os sexos que sofrem de anorexia nervosa, bulimia nervosa e obesidade e compulsão alimentar. Dispõe de equipe interdisciplinar, com estagiárias de psicologia, nutrição e fisioterapia.

SERVIÇO

Centro de Tratamento de Transtornos Alimentares (Cetrata)

Atendimento: terças-feiras, 8h às 11h

Telefone: (85) 3366-8149

Foto: Fiocruz