Consciência Negra: reconhecimento, construção da negritude e representatividade

20/11/2021 - Câmara Municipal de Fortaleza

Num país com mais de 50% da população que se declara negra, o processo de identificação racial ainda é complexo, de forma que o racismo estrutural aumenta as desigualdades e as violências contra mulheres e homens negros

Foto: Mateus Dantas

Tomar consciência da própria existência é um processo que leva tempo. Mesmo que pareça óbvio reconhecer os lugares, as narrativas e as perspectivas emocionais que são comuns à vida das pessoas e nas histórias que antecederam o cotidiano delas, é um caminho que passa por diferentes etapas e desafios, especialmente, no que diz respeito à construção da identidade. Sob esta perspectiva, pela luta de mulheres e homens negros por direitos, em ações de enfretamento a todo tipo de racismo e sob a forma como os negros foram trazidos ao Brasil e colocados em regime de escravidão, a data da Consciencia Negra é um importante marco da história do país para chamar atenção às desigualdades e às violências contra a população negra ao longo da formação histórica da sociedade brasileira.   

Em 20 de novembro, é comemorado o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra. A data foi oficializada em 10 de novembro de 2011, pela Lei nº 12.519. O dia é marcado pela morte de Zumbi, o então líder do Quilombo dos Palmares, um dos importantes símbolos da luta e da resistência do povo afro-brasileiro pela abolição dos negros escravizados no Brasil. Zumbi foi morto nesta data, em 1695, por um grupo de bandeirantes. 

No Brasil, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 54% da população é formada por pessoas que se declaram negras. É também o segundo país do mundo que tem mais negros fora da África. Porém, mesmo com a maior parte da população do país negra, ser negro ou negra não é uma constatação lógica no Brasil. O processo de reconhecimento e, consequentemente, de elaboração da identidade negra acontece a partir de movimentos individuais e coletivos, que são influenciados fortemente pelos costumes, épocas, conflitos, educação e narrativas sociais. O mito da democracia racial, criado a partir da miscigenação do povo brasileiro, torna ainda mais complexa a autodeclaração de negros e potencializa o racismo no Brasil.

Wanessa Brandão, assistente social l Foto: Mateus Dantas

A assistente social Wanessa Brandão está entre as brasileiras que se declaram negras de pele clara. Porém, o lugar como parte da população negra é, ainda em alguns momentos, vivenciado sob olhares de desconforto. “Sou sempre vista como parte, mas também, como a pessoa que vai ter um pouco mais de acesso. ‘Ela tem o cabelinho assim, mas é mais clarinha. Então, tá tudo certo pra ela’”, descreve como é vista, especialmente, no bairro Vila Velha, onde mora, por outras pessoas do seu convívio.

Sob esta perspectiva, Brandão lembra que seu processo de entendimento como mulher negra levou tempo. Ele aconteceu um pouco antes de iniciar a vida acadêmica, devido a sua participação em movimentos sociais em seu bairro e com o aprofundamento dos estudos sobre sua negritude na universidade. “Sou uma mulher negra de pele clara e meu corpo é marcado por vivências que eu não achei de onde vinham. É um processo que ainda está na minha construção identitária”, ressalta.

Como parte do desenvolvimento da construção da sua negritude, a assistente social lembra do apagamento da história da população negra no Brasil. O que, para ela, gera em pessoas negras de pele clara “dificuldade de identificar o racismo, porque a gente nem tem a consciência de que somos negros”. Por outro lado, “para pessoas retintas, isso é muito escancarado”, destaca.

“Eu apoio a questão do colorismo, mas a gente precisa ter cuidado, porque eu acho que o colorismo pode ser uma arma que pode se virar contra nós. Os brancos se aproveitam muito da discussão do colorismo para fazer com que nós mesmos entremos em conflito. Porque, eles geram oportunidades individuais pra gente, mas não geram oportunidades coletivas”, completa.

Hilário Ferreira, cientista social l Foto: Mateus Dantas

A consciência sobre ser negro do cientista social Hilário Ferreira aconteceu num processo traumático, racista e também libertador. Atuante em movimentos da juventude que trabalhavam com teatro, poesia e outras artes, no bairro em que morou, na Piedade, foi convidado, quando jovem, para protagonizar Barrabás, na peça Paixão de Cristo.“Relutei muito em assumir o papel, porque sempre via brancos fazendo, inclusive Cristo. No dia da apresentação, a plateia começa com apelidos racistas, porém, naquele momento, bem de consciência política, vou compreender, porque são pessoas do povo. O problema foi depois. Os meus companheiros de debates e de lutas começaram a reproduzir os mesmos discursos. Não gostei. Dei um murro na porta e fiz um discurso pedindo respeito. No outro dia, acordei leve”, lembra.

A repercussão do personagem na peça e ouvir o álbum Missa dos Quilombos, do Milton Nascimento, colocaram Hilário em outra relação consigo e também com sua negritude. Ele conseguiu se perceber como uma pessoa negra, de forma a assumir este lugar social e político. “A importância, primeiramente, passa pela autoestima. Eu, a partir desse processo, comecei a gostar de mim. Antes, lembro muito, era sempre o alvo da sala de aula, enquanto aluno, das piadas racistas e acabei assumindo a minha beleza negra. Eu fui gostando de mim. Assumindo que sou negro. Fui percebendo que, ao assumir isso, é um caminho sem volta”, comemora.

O reconhecimento de Hilário como homem negro o transformou em um pesquisador da cultura e da história negra no Ceará. “É como se eu tivesse aberto uma porta que tivesse sido fechada”. Além de ampliar o seu olhar sobre existência e resistência do povo negro no Brasil. Apesar de ainda considerar “complexa e problemática” ser negro no País, o cientista político percebe que o povo negro vem ocupando espaços e conquistando representatividade. 

Wilbert Santos, artista multilinguagem l Foto: Mateus Dantas

Representatividade é um dos sentimentos do artista multilinguagem, Wilbert Santos. O jovem negro que trabalha com arte, cultura e educação em Fortaleza, comemora a importante conquista em ser referência para outras pessoas negras, assim como fortalecer o processo de identidade racial dele e delas. “As pessoas chegam e dizem: meu sobrinho vê um lápis e sabe que aquele lápis não é cor de pele. Ou, eu passo na rua e as pessoas me olham e me veem como referência pelo que eu faço, por ser potência, sabe. Então, essa representatividade me coloca nesse lugar, de ter uma responsabilidade afro afetiva com o que eu faço”, afirma. 

Desde pequeno, “o Wilbert negro, criança, que já nasceu com esse corpo negro”, recebeu da família influências da cultura negra, principalmente por meio da música como o samba, reggae e merengue. O acolhimento dos seus foi fundamental para afirmar a consciência de sua existência como pessoa negra. “Quando a gente fala em ser negro na cidade, a gente não fala da boca pra fora. A gente está falando das nossas vivências, dos nossos históricos, de pessoas que já passaram, de pessoas que a gente perdeu, de pessoas que mataram na nossa frente, de sangue que escorre na nossa calçada todo dia, entende”. 

O reconhecimento da negritude de Wilbert é diária e vem desde cedo. Este lugar o coloca num processo de ser ponte para que outras pessoas se reconheçam como negras e, especialmente, que sejam quebradas as ações históricas e estruturais de que negros são inimigos. “É isso que a máquina quer, que homens negros e mulheres negras estejam em constantes conflitos. Morrendo e matando. Todo esse sangue do extermínio da juventude negra é fruto de uma política que quer que a gente se mate. Que a gente olhe para os nossos amigos, pra pessoas que a gente convive e vejam eles como inimigos quando, na verdade, pela perspectiva africana, a gente tem como irmão, que merece meu respeito, minha solidariedade e os meus porquês”, ressalta.

Dione Silva, técnica em gestão de recursos humanos l Foto: Mateus Dantas

Dione Silva é uma mulher negra, mãe, yawô do Ilê Axé Tiluaê Orubaia – Oku Lay Lay da Kakunda de Yaya, filha do Doté Balbino d’Ogum, moradora do bairro Álvaro Weyne e técnica em gestão de recursos humanos. Atuante no movimento negro, desde 2004, é fundadora da Juventude Negra Kalunga, membro da Coordenação Nacional de Entidades Negras (CONEN) e diretora do Instituto de Juventude Contemporânea (IJC). A consciência como pessoa negra veio desde muito cedo. Descendente de uma família com muitas misturas de pele, Dione, sempre que estava com sua irmã mais velha ou sua mãe, que são brancas, sentia no convívio com outras pessoas a postura de realçar as diferenças entre elas.

“Na infância eu não tinha muito essa percepção racial. Interpreto como opressões, o que eu passei e minha irmã, que não é negra, não. Eram, na maioria das vezes, sutis: sempre elogiaram a beleza de minha irmã e a mim não eram dirigidos os mesmos elogios. Algumas vezes, presenciei pessoas duvidando que eu e minha irmã éramos de fato irmãs. Minha família mais próxima sempre tentou nos tratar de forma igual, mas havia diferença no tratamento”, lembra. 

O principal fator para estas diferenças é o racismo estrutural que faz parte do contexto histórico do Brasil. “O racismo é um sistema de poder que nos inferioriza e que aliado ao machismo, nos submete a diversas violências cotidianamente. Então, ser mulher negra num país que foi estruturalmente construído sob as opressões contra nosso povo negro e indígena, sobretudo às mulheres, é muito pesado, muito desafiador”, lamenta.  

Reportagem: Indyra Gonçalves

Fotos: Mateus Dantas