Câmara realiza audiência pública para discutir a prática da pedofilia na Capoeira

16/11/2021 - Marcelo Raulino

A audiência pública teve como objetivo dialogar durante a Semana Municipal da Capoeira sobre o tema pedofilia

A Câmara Municipal de Fortaleza realizou, nesta terça-feira (16), audiência pública visando dialogar durante a Semana Municipal da Capoeira sobre o tema pedofilia e a instalação da Comissão de Ética sobre o Combate a essa Prática na Capoeira. A Mesa foi presidida pelo vereador Lúcio Bruno, e contou com as presenças da vereadora Larissa Gaspar, presidente da comissão dos direitos humanos; Lila do mandato coletivo Nossa Cara; mestre Buldogue, presidente da comissão de ética da capoeira do Estado do Ceará.; mestre Paulão, tesouro vivo da cultura do estado do Ceará; Adriane Maria, representando o movimento Capoeira Acolher e mãe de vítima do movimento e Raquel Andrade, da Procuradoria da Assembleia Legislativa.

A vereadora Larissa Gaspar afirmou que há notícias de algumas práticas equivocadas e criminosas que ocorrem na Capoeira e em outros locais, e que elas estão presentes em vários segmentos, “até mesmo em nossas casas e precisamos ter força para enfrentar. Com a força da Adriane Maria, mãe de uma vítima, oficiamos esse grupo Acolher e a Procuradoria está investigando. Precisamos também de apoio às vítimas, esperamos que os acusados sejam condenados pelos crimes, mas as vítimas precisam de suporte psicológico e jurídico. Um dos agravos de quem sofre violência é o agravamento da saúde mental. Precisamos cobrar do poder público o acolhimento dessas vítimas”, disse.

O vereador Lúcio Bruno disse que a intenção não é manchar o nome da capoeira, mas de erguer ainda mais através do combate dessa prática. “Temos o apoio das vereadoras Larissa e da co-vereadora Lila da mandata Nossa Cara.” A co-vereadora Lila, falou em seguida, destacando que essa audiência ocorre no mês do povo negro. “A capoeira mexe muito com o corpo e entendo a capoeira como algo que dá acesso ao próprio corpo. Há um processo de sensualização do nosso corpo. Resistir é procurar denunciar, é uma forma de reconhecer. Quero ser grata a todo capoeirista que está mobilizado com esse tema”, afirmou.

O próximo orador foi o mestre Buldogue, que afirmou que ele e alguns capoeiristas se reuniram e tentaram fazer com que essa a comissão funcione, devido as más ações de alguns capoeiristas, “temos que dar um basta nisso. Essa comissão será homologada, não é pra prender ninguém, mas para avaliar, pois existem mestres que são lobos em pele de cordeiro, que nos decepcionam. Era pra funcionar isso há muito tempo. Eu sou mestre há quase 40 anos, eu tenho mal de Parkinson, mas convivo com isso, e vamos fazer o melhor possível para melhorar. Estamos nos reunindo a cada 15 dias. Espero que todos fiquem atentos e nos ajudem a construir essa comissão,” frisou.

Momento Histórico

Mestre Paulão Ceará disse que esse é um momento histórico para capoeira, mesmo numa situação bem difícil, mas necessária. “Mesmo morando 28 anos fora do Brasil, e hoje moro em Budapeste, vejo que nosso país passa situação muito difícil, principalmente entre valores éticos e morais. Essa situação estourou na capoeira. Saúdo a Adriane que denunciou. Sou presidente da Federação Mundial da Capoeira e quando aconteceu o primeiro caso nós tomamos as medidas administrativas porque um dos acusados fazia parte do conselho de mestres da federação mundial e fomos os primeiros a tomar iniciativa de afastá-lo. Estou sendo processado, mas tomamos as medidas necessárias para a defesa. Sou contra qualquer prática criminosa”, ressaltou.

Raquel Andrade, da Procuradoria Especial da Mulher da Assembleia Legislativa e da OAB Ceará, disse que está acompanhando esses casos desde março de 2020, “soubemos num evento da mulher realizado no Dragão do Mar. Quando começamos a debater o tema, algumas pessoas começaram a se desestabilizar, a chorar e sair do encontro. Em outro momento, fomos conversar e soubemos que havia uma rede estruturada, de alcance nacional e internacional, para essa prática. Temos comprovação dessas denúncias, cobramos as investigações, oficiamos, ligamos para tentar com que o Estado intervisse de alguma forma nessa realidade. Temos algumas ferramentas, como o Capoeira Acolher. Sou vítima de agressão sexual e quando começamos a falar e vimos a reação identificamos logo que alguma coisa estava errada”, frisou.

Adriane Maria destacou não ser fácil discutir esse assunto, mas é necessário. “Quero agradecer aos mestres que estão aqui principalmente os que não se esconderam e me ouviram, que foram poucos. Desde 2017 que venho nessa luta e desde o início não queremos manchar a capoeira, por isso não procuramos logo a Justiça. Mas existem pessoas que usam a capoeira para destruir vidas. Me assustei com esse lado de omissão, falta de cuidado ao próximo. Eu cresci vendo a capoeira sendo vida para todos nós e não conseguimos entender a razão de alguns capoeiristas não veem dessa forma, e preferem ficar do lado de mestres famosos para não perder a amizade. Mas essas pessoas não são capoeiristas. Essas pessoas estão trazendo de volta a imagem de antigamente que a capoeira é uma prática de vagabundos. Mas graças a Deus, existem capoeiristas sérios que continuam resgatando vidas com um largo trabalho social,” detalhou.

Ela disse que têm pessoas que afirmam que essas denúncias não vão dar em nada. “Nós estamos fazendo nosso papel e fazendo com que a capoeira volte para o que sempre foi. Temos que peneirar, seja a estrela que for. Se manchar a capoeira, ele perde o direito. Quero que você se coloque no lugar de um menino que foi para um treino que ficou tarde e foi convidado para dormir na casa do mestre e foi assediado. Crianças de 10, 12 anos. Como pode você que está realizando um evento de capoeira, levando o mestre investigados por abusos? Peço sensibilidade, pensem nas vítimas. Cuidem das crianças!” salientou.

Covardia

O vereador Lúcio Bruno se colocou a disposição para também lutar junto com o movimento para combater essa prática. “Essas pessoas já eram para estar afastadas há muito tempo da capoeira, não entendo como elas continuam. O que eles fazem é covardia. Muitas vezes as vítimas não denunciam o assédio com medo de serem julgadas e esquecem que são vítimas”, observou. Em seguida foi aberta a fala para a plenária, entre eles, outra vítima de pedofilia, o professor Paulo Sousa, que disse ter sido abusado sexualmente aos 12 anos. Ele pediu para que a Casa reconheça 1º de junho de cada ano seja reconhecido como Dia Municipal contra a Pedofilia.

O vereador Lúcio Bruno disse que essa é a primeira reunião sobre o tema e que outras virão para que essa prática seja combatida de forma exemplar. No final da audiência foi feita a leitura do Código de Ética e a instalação da diretoria da Comissão de Ética sobre o Combate a essa Prática na Capoeira, para o biênio 2021 a 2023, formada pelo Mestre Buldogue (presidente); Mestre Severo (Relator) e conselheiros; Mestre Gerson do Vale; Mestra Doralice; Mestre Juliano; Mestre Relações e Mestre Recruta.

A audiência discutiu também sobre a violência contra outras minorias da sociedade que precisam sem combatida (Fotos: Evilázio Bezerra)