Novas variantes da Covid-19 podem ser mais agressivas e atingir público jovem, diz especialista

21/07/2021 - Rochelle Nogueira

A pesquisa aponta que 4 em cada 10 pessoas entre 19 e 49 anos desenvolveram problemas nos rins, pulmões ou outros órgãos durante o internação e no pós-covid

Movimentação pelas ruas de Fortaleza Data: 21.07.2021 Foto: Érika Fonseca

Um estudo lançado pela Revista The Lancet reforça que adultos mais jovens internados com Covid-19, têm um risco alto de sofrer complicações. Segundo o estudo realizado no Reino Unido, 4 em cada 10 pessoas entre 19 e 49 anos desenvolveram problemas nos rins, pulmões ou outros órgãos durante o tratamento.

Foram analisados 73.197 indivíduos, com participação de 302 hospitais do Reino Unido. A amostragem ocorreu em adultos de todas as idades na primeira onda de Covid-19 em 2020. Na análise, durante o período de internação, quase a metade dos pacientes sofreram complicação, sendo, a mais comum, a renal, seguida por lesão pulmonar e cardíaca.

No Brasil, especificamente no Ceará, a realidade seguiu a tendência mundial evidenciando que o público mais jovem também foi alvo do vírus. O médico pneumologista, supervisor do Centro de Educação Permanente em Gestão e Saúde da Escola de Saúde Pública do Ceará, Fabrício Martins, relata que houve aumento significativo de pacientes mais jovens com complicações em decorrência da covid-19 com impactos também após alta hospitalar.

“Sem dúvida alguma a gente vê o número muito grande de pacientes mesmo mais jovens, principalmente aqueles que têm quadros mais moderados e severos da doença, evoluindo para o que a gente chama de síndrome pós-covid. Não é pelo fato do indivíduo ser mais jovem que essas sequelas não existam, elas existem e a gente vê um aspecto bem parecido com os pacientes de maior idade como: dificuldades respiratórias, necessidade muitas vezes de reabilitação pulmonar principalmente nos pacientes internados, às vezes sintomas em relação ao olfato, ao gosto dos alimentos, dor de cabeça, dificuldade para dor dormir, sintomas de depressão e ansiedade”, disse.

Segundo o especialista, o acometimento de jovens pela covid-19 vem sendo notado desde a primeira onda da pandemia, reforçando que as ações de segurança precisam ser mantidas com distanciamento social e uso de máscara (uso de máscara adequada de preferência as máscaras de maior proteção tipo PFF2, N-95). “Não é pelo fato de a pessoa ser mais jovem que isso não aconteça. As sequelas estão aí e existem serviços de reabilitação aqui em Fortaleza mostrando um grande número de pacientes jovens”, evidenciou o médico.

Com a mudança de público, principalmente com a vacinação dos idosos na primeira fase de imunização, a 2ª onda constatou o que dizem os estudos atentando para uma mudança no padrão de faixa etária.

“Isso é mostrado no trabalho que foi citado por pesquisadores cearenses que traz uma resposta importante e uma reflexão. A covid-19 é uma doença que diz respeito a todos nós, claro que as pessoas que têm mais fatores de riscos como os mais idosos que tem risco maior de evoluir às complicações e gravidades, no entanto esses riscos não pertencem somente a essas pessoas. A doença ficou, posso dizer, com uma distribuição até mais democrática em relação às faixas etárias nesta segunda onda. A gente vê uma mudança no perfil dos pacientes internados grave, inclusive em UTI, o que mostra que todo mundo tem que se cuidar”, alertou o pneumologista atentando que a vacinação ainda está em andamento, havendo ameaças das novas variantes e as medidas devem ser mantidas.

O médico conta que uma hipótese levantada recentemente e publicada por um grupo do Ceará, revela que o vírus, nas novas variantes, pode assumir uma característica bem mais agressiva, mais transmissível e mais patogênica e, devido a isso, atingiu pessoas até mais jovem.

Impactos da pandemia

Segundo a Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) os impactos da pandemia devem durar cerca de 10 anos. Dr. Fabrício Martins ressalta que o vírus ainda vai estar presente na sociedade por um bom tempo, pois não há fórmula mágica para que desapareça. Ele cita que mesmo com a vacinação em massa não deixaremos de conviver com o Sars-cov 2, assim como aconteceu com o H1 N1.

“Esses impactos durarão 10 anos porque existem consequências em relação as sequelas, o vírus ainda vai circular durante algum tempo, impactos econômicos e sociais que nesse momento ainda são imensuráveis. Só tem uma maneira de fazer o controle dessa pandemia que é através da vacinação e das medidas de comportamento social e cuidados”, refletiu o médico.

Mais dados da pesquisa

– Pessoas com doenças pré-existentes eram mais propensas a relatar complicações — no entanto, o risco era alto mesmo em indivíduos jovens previamente saudáveis;
– A pesquisa mostrou que 13% das pessoas de 19 a 29 anos e 17% das pessoas de 30 a 39 anos hospitalizadas com covid-19 eram incapazes de cuidar de si mesmas quando tiveram alta e tinham que contar com amigos e familiares;
– Das 406.687 pessoas com a doença na Inglaterra desde o início da pandemia, 62% tinham mais de 65 anos. Mas as maiores taxas de vacinação na população idosa e vulnerável significam que a idade média dos internados com a doença vem caindo;
– O estudo foi projetado apenas para observar complicações de curto prazo durante uma internação hospitalar, mas há evidências de que alguns danos a órgãos podem persistir, tornando-se uma forma da doença que é conhecida como covid longa.

Foto: Érika Fonseca