Brasil poderá ter até julho uma vacina contra Covid-19 100% nacional

26/03/2021 - Marcelo Raulino

As pesquisas sobre o novo imunizante foram iniciadas em março do ano passado.

O Instituto Butantan, ligado ao Governo de São Paulo, anunciou que vai enviar o pedido de autorização à Anvisa para dar início aos testes clínicos com seres humanos. O anúncio foi feito nesta sexta-feira (26) pelo presidente do Instituto, Dimas Covas. As pesquisas sobre o imunizante foram iniciadas em março do ano passado.

Covas disse que a ideia é realizar testes clínicos com seres humanos em apenas três meses e se tudo der certo, disponibilizar as primeiras 40 milhões de doses a partir de julho. A capacidade de produção do Instituto pode chegar a 100 milhões por ano. Em coletiva à imprensa, ao lado do governador de São Paulo, João Dória, Covas disse que os estudos serão feitos em dois meses e meio, no máximo três meses, para disponibilizar as doses no segundo semestre.

A vacina

A  Butanvac vai utilizar a mesma tecnologia da vacina contra a gripe, que também é fabricada pelo Instituto Butantan. O vetor utilizado é um vírus chamado Newcastle, que infecta aves. Os pesquisadores injetam nesse vírus os genes da spike do coronavírus, como é chamada a proteína que se encaixa nas células humanas para promover a infecção. Depois de modificar o vírus Newcastle com a proteína do coronavírus, ele é introduzido em ovos de galinha, onde se multiplica.

Dimas Covas ressalta que a vacina se utiliza da estrutura básica de um vírus, que é modificado geneticamente e expressa a proteína S, “só que essa proteína S é uma super proteína S. Ela desenvolve imunidade de uma forma muito mais efetiva que essas outras vacinas no mercado que usam a proteína S,” garante, acrescentando que o uso de ovos para fabricar vacinas é uma tecnologia barata, o que deve favorecer a fabricação de milhões de doses a um custo baixo.

Ele observa que no mundo, não existe nenhuma vacina contra a Covid-19 produzida em ovo. Mas muitas usam essa tecnologia para produzir vacina da gripe. “Essa tecnologia é mais barata e mais moderna, porque essa é uma tecnologia tradicional, além disso é segura”. O Butantan deu entrada nesta sexta (26) com pedido na Anvisa para iniciar estudos clínicos, que envolvem o uso da vacina em seres humanos. São três etapas nesta fase, aprovação da Anvisa, testes clínicos e os resultados.

Covas afirma que o Instituto já tem lotes suficientes para iniciar o estudo clínico, que deverá ser muito rápido. A Butanvac vai ser produzida na mesma fábrica que o Butantan utiliza para produzir vacinas contra a gripe. A ideia é concluir a produção das vacinas para a campanha contra a gripe em março e início de abril, para liberar a estrutura para a produção do imunizante contra a covid-19.

Variante de Manaus

O presidente do Butantan disse que pesquisadores já estão utilizando os aspectos genéticos da variante de Manaus, apelidada de P.1, nas pesquisas para produzir a Butanvac, com isso a vacina também teria efeito contra essa nova cepa de Manaus. Mas o imunizante também pode ser adaptado se aparecerem novas cepas. Existem estudos que mostram que as vacinas utilizadas atualmente podem perder eficácia contra a variante de Manaus, já que ela possui uma mutação, a E484K, capaz de evadir os chamados anticorpos neutralizantes, que tentam impedir a entrada do vírus no organismo, ao se colocarem entre as células humanas e a proteína spike.

A produção da Butanvac será feita num consórcio que inclui uma fabricante vietnamita e outra tailandesa, embora 85% da participação nesse grupo seja do Butantan. A ideia é que, depois de a população brasileira ser imunizada, doses da Butanvac sejam exportadas para a América Latina e países de renda baixa e média, incluindo Vietnã e Tailândia.

Na Organização Mundial de Saúde (OMS), a notícia de uma vacina brasileira foi recebida de forma positiva. A entidade teme que, com países ricos se recusando a abrir mão de patentes, a escassez na produção de imunizantes possa perdurar inclusive em 2022.  Mas mesmo na OMS, entre os testes e uma aprovação final, pode exigir “um longo caminho”. Atualmente, segundo a OMS, existem 83 vacinas em fase de testes clínicos pelo mundo. Na fase pré-clínica, são outras 184 candidatas.

Foto: Reprodução/Butantan