Covid-19: mutagênese letal pode ser uma arma importante no futuro para combater o vírus

15/10/2020 - Cleonardo Dias

A Covid-19 já infectou mais de 38 milhões de pessoas em todo o mundo e matou mais de um milhão

A evolução da pandemia do novo coronavírus continua desafiando a comunidade científica e as autoridades de saúde a buscarem respostas através de estudos e pesquisas. Recentemente cientistas têm ponderado a possibilidade de usar uma estratégia alternativa que consiste em utilizar as próprias armas do vírus Covid-19 contra si próprio, resultando na autodestruição.

Segundo um artigo publicado no site da BBC News Mundo, a estratégia dos pesquisadores é, através de medicações específicas, tentar acelerar as diversas mutações que o vírus sofre causando uma mutação mortal, conhecido pelos cientistas como “mutagênese letal”. Medicamentos que causam mutagênese letal já foram testadas contra outros vírus. A dúvida da classe científica é se esse mesmo mecanismo funcionaria contra o novo coronavírus.

A publicação destaca que o vírus por trás da Covid-19 é um vírus de RNA, o que significa que o material genético no seu interior é ácido ribonucléico. Vírus de RNA, como os da gripe, ebola ou covid-19, entre outros, consistem basicamente em uma mensagem escrita em RNA rodeada por proteínas. Essa mensagem é redigida em quatro letras, ‘a’, ‘g’, ‘c’, ‘u’, onde cada uma representa um composto químico ou nucleotídeo, e a posição desses compostos, assim como a ordem das letras numa palavra, decide qual é a mensagem passada.

De acordo com Esteban Domingo, virologista do Centro de Biologia Molecular Severo Ochoa, em Madri, explica como funciona a mutagênese letal. “Mutar até a morte significa que um excesso de mutações faz com que as proteínas sintetizadas pelo vírus tenham tantas alterações que não funcionam bem. É como se eu te desse um computador para escrever e que eu programo para que a cada dez letras que você escreva, ele coloque uma errada, e que você tenha que reproduzir esse texto várias vezes no mesmo ritmo das letras. Verá que no final seria um texto incompreensível. Isso é o que acontece com o vírus e o resultado é uma incapacidade de infectar”, disse.

O artigo também aponta quais os possíveis medicamentos que podem enganar os vírus durante sua replicação. Um desses medicamentos é o favipiravir, que tem diferentes mecanismos de ação e um deles é a mutagênese letal. Segundo Armando Arias, virologista da Universidade de Castilla-La Mancha, na Espanha, o medicamento atua disfarçando algumas letras da mensagem do RNA, induzindo ao erro. “Poderíamos dizer que o favipiravir é uma letra disfarçada. O vírus reconhece-o como uma letra e incorpora-o. Uma vez incorporado, quando vai copiá-lo novamente, não sabe se é um a ou se é um g”, explanou.

Testes em humanos

Atualmente, existem mais de 30 estudos clínicos sobre o efeito do favipiravir em pacientes com covid-19. Um estudo preliminar na China mostrou que os pacientes com covid-19 que receberam favipiravir eliminaram o vírus em 4 dias, em vez de 11 dias com outros antivirais, porém, a medicação só foi administrado em 35 pacientes, e os pesquisadores chineses observaram que não foi um estudo duplo-cego randomizado.

(“Duplo-cego” significa que pesquisadores e pacientes não sabem qual tratamento é designado, e “randomizado” significa que os participantes são distribuídos de forma aleatória. Ambas as condições garantem que um estudo não seja afetado pelo efeito placebo ou viés do observador).

Pesquisadores russos também apontam que o favipiravir obteve resultados positivos em pacientes com sintomas moderados de covid-19, mas o estudo, publicado em agosto, não foi revisado. O artigo destaca que não está claro a partir desses testes em humanos se o efeito positivo foi devido à mutagênese letal ou outro mecanismo de ação do medicamento.

O virologista, Armando Arias, alerta que o favipiravir ainda tem muitas limitações, pois é um composto de baixa solubilidade e isso dificulta, por exemplo, sua injeção na corrente sanguínea. “Cada vez temos melhores ferramentas para gerar melhores medicamentos e se encontrarmos um composto mais solúvel, podemos obter resultados muito melhores”, disse.

Para os pesquisadores a mutagênese letal pode ser uma arma importante no futuro para combater o covid-19 e outras pandemias. Segundo eles, existem evidências crescentes de que a mutagênese letal é a estratégia antiviral mais promissora e que tem a grande vantagem de poder ser eficaz contra uma grande bateria de vírus de RNA muito diferentes.

Informações: BBC News Mundo

Foto: Reprodução/ Internet