Autoridades de saúde reforçam importância da vacinação de rotina

09/09/2020 - Marcelo Raulino

Fake news e pandemia impactam na cobertura vacinal e preocupam autoridades

Vacinação H1N1

Por ano, as vacinas são responsáveis por evitar de 2 a 3 milhões de mortes, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, segundo o Ministério da Saúde (MS), todas as vacinas destinadas a crianças menores de dois anos de idade têm apresentado queda na cobertura desde 2011. Dados de 2018 indicam que a cobertura vacinal contra a poliomielite, por exemplo, foi reduzida para 86,3%. O país, que já foi considerado livre do sarampo, perdeu o certificado de erradicação da doença em 2019. Uma das causas é a queda da cobertura vacinal em 20%, aponta o MS.

De acordo com a Secretaria de Saúde do Estado (Sesa), a cobertura vacinal no Ceará caiu em algumas vacinas no primeiro semestre em relação ao mesmo período do ano passado. No caso da vacina BCG, que previne tuberculose, caiu de 98,07% de cobertura entre janeiro e junho de 2019, para 52,71% nos seis primeiros meses deste ano. Já, a vacina pneumocócica, que protege contra doenças como pneumonias e meningites, alcançou 100,5% de cobertura em 2019 contra 73,39% neste ano. Outras vacinas como menigocócica C, pentavalente, poliomielite, rotavírus humano e tríplice viral também apresentaram reduções consideráveis em sua cobertura.

Segundo a Coordenadora de Imunização da Sesa, Carmem Osterno, as notícias falsas correm nas redes sociais há mais de dez anos, originadas principalmente de países como França e Inglaterra. “Hoje todo mundo corre para o Dr. Google onde existem muitos materiais de médicos ingleses e franceses contra as vacinas. Aqui no Ceará temos combatido isso. Na Europa esse pensamento é disseminado, e acaba prejudicando não só os europeus, mas todo o mundo. Aqui no Brasil ainda temos uma boa cobertura e a população tem respondido positivamente as campanhas”, afirma.

Ela observa que neste ano a baixa cobertura vacinal não foi ocasionada pelas fake news, mas pela pandemia de Covid-19. “Para dar cumprimento ao decreto do governador e dos prefeitos, as unidades de saúde, mesmo estando abertas e com vacinas, a população não compareceu para a vacinação. Tivemos também muitos profissionais das salas de vacina que foram afastados por serem do grupo de risco. Foram esses pontos que tivemos que enfrentar e agora estamos retornando. Começamos uma campanha grande com os municípios e fizemos web conferências, com os secretários, coordenadores de imunização, com o conselho saúde e com a comissão de saúde. Com esse movimento temos conseguido recuperar as nossas coberturas. Hoje nosso percentual está entre 60 a 80%, mas deveria estar acima de 90%. Esperamos que até o final do ano atinjamos a meta estabelecida pelo Ministério da Saúde”, pontuou.

Outro ponto destacado por Carmen é o retorno das aulas presenciais, pois as escolas auxiliam muito na divulgação das campanhas de vacinação, o que pode ampliar a cobertura de vacinas nas crianças e adolescentes. Ela relata que muitos pais, acham que devem vacinar os filhos somente até um ano de idade e depois esquecem as demais doses. “Existem reforços que devem ser aplicados nas crianças para que elas estejam 100% imunizadas e precisamos alertar os pais sobre isso”, concluiu.

Fake News

Os defensores da antivacina encontraram uma forte aliada na sua marcha contra as campanhas de imunização no país – as chamadas fake news. Segundo a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), aproximadamente 67% dos brasileiros acreditam ao menos em uma notícia falsa sobre vacinação. Esse dado faz parte do estudo “As Fake News estão nos deixando doentes?”, realizado em parceria com a Avaaz, com o objetivo de investigar a associação entre a desinformação e a queda nas coberturas vacinais verificadas nos últimos anos.

A pesquisa foi realizada pelo IBOPE com cerca de 2 mil pessoas acima de 16 anos, em todos os estados e no Distrito Federal, no ano passado, respeitando as características demográficas do país. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%. Na época, a coordenadora de campanha da Avaaz, Nana Queiroz, disse que o Brasil vive uma epidemia de desinformação sobre vacinas”. Ela defendeu que as grandes plataformas deveriam tomar para si a tarefa de esclarecer sobre as notícias falsas e se não fizerem isso, que o próprio governo assuma a tarefa.

Outros números do estudo, mostram que a grande maioria (87%) disse nunca ter deixado de se vacinar ou de vacinar uma criança sob seus cuidados, mas 13% dos entrevistados disseram ser não-vacinantes, o que representa um contingente de mais de 21 milhões de pessoas. Apesar dos indícios de que as fake news tenham algum impacto nas campanhas de vacinação, a Secretaria de Saúde do Município diz que não existe uma pesquisa local que comprove isso. “Cremos que a baixa adesão deste ano decorre do medo das pessoas de se dirigirem aos postos de Saúde, devido a pandemia da covid-19”, disse.

No estudo da SBIm e Avaaz, 57% dos entrevistados relataram pelo menos um motivo considerado como desinformação para não realizar a imunização.

Os mais comuns foram os seguintes: “não achei a vacina necessária (31%)”; –“medo de ter efeitos colaterais graves após tomar uma vacina (24%)”; –“medo de contrair a doença que estava tentando prevenir com a vacina (18%)”; –“por causa das notícias, histórias ou alertas que li online (9%)”“por causa dos alertas, notícias e histórias de lideres religiosos” (4%).

Os entrevistados também indicaram até três fontes de informação nas quais mais veem ou ouvem informações sobre vacinas: a mídia tradicional, que inclui televisão, rádio, jornais e sites de notícias da grande imprensa, foi a mais mencionada (68%). Mas em segundo lugar estavam as redes sociais, como o Facebook, YouTube, Instagram, além do WhatsApp e demais aplicativos de mensagens instantâneas (48%) — essas fontes se mostraram mais recorrentes que o Ministério da Saúde ou médicos, por exemplo, que aparecem em quarto e quinto lugar respectivamente.

Outro ponto investigado foi a frequência com que os brasileiros têm contato com conteúdos contrários à vacinação nas redes sociais. Aproximadamente 38% dos que responderam à pesquisa disseram receber mensagens negativas com alguma regularidade, ao passo que 59% responderam que raramente recebem ou nunca receberam. O prejuízo no que diz respeito à visão sobre as vacinas é claro: 72% dos que acreditam que as vacinas são parcialmente inseguras e 59% daqueles que pensam que as vacinas são totalmente inseguras afirmaram que já receberam notícias negativas sobre elas em suas redes sociais e serviços de mensagens.

Segundo a vice-presidente da SBIm, Isabela Ballalai, a vacinação é uma atividade de extrema importância para a saúde pública, portanto o governo deve se esmerar para manter as equipes atualizadas. “É fundamental que os profissionais da saúde estejam preparados para responder rapidamente às dúvidas da população diante de situações que não têm o menor embasamento científico”, avalia.

  • A Avaaz descobriu que as páginas contrárias às vacinas que mais geraram interação nas redes sociais foram:
  • Cruzada Pela Liberdade – 762 mil interações / 345 mil seguidores;
  • Grupo O Lado Obscuro das Vacinas – 64 mil interações / 13,9 mil membros / mais de 1.970 posts;
  • Contra Nova Ordem Mundial – 54 mil interações / 25.851 mil seguidores.

Foto: Érika Fonseca