Setembro amarelo: sobrecarga de trabalho afeta saúde mental das mulheres

08/09/2020 - Anna Regadas

Acorda, faz o café da manhã, prepara os filhos para a aula, faz o almoço, trabalha de forma remota, tem prazo e é cobrada pelo chefe, mas em casa é interrompida constantemente. O dia ainda não acabou e restam muitas atividades para fazer. Além das compras e higienização, precisa organizar a casa, ensinar os filhos […]

Acorda, faz o café da manhã, prepara os filhos para a aula, faz o almoço, trabalha de forma remota, tem prazo e é cobrada pelo chefe, mas em casa é interrompida constantemente. O dia ainda não acabou e restam muitas atividades para fazer. Além das compras e higienização, precisa organizar a casa, ensinar os filhos e preparar o jantar. Por trás dessa maratona diária, vivenciada por milhares de brasileiras, há uma série de fatores que podem afetar saúde mental das mulheres.

Em nosso cenário social, historicamente, as atividades domésticas e familiares se concentram sobre as mulheres. Nesta pandemia houve uma sobrecarga maior desse trabalho, evidenciando ainda mais a desigualdade de gênero. Com a crise econômica, as mulheres também foram as mais afetadas pelo desemprego, muitas atuando no informal, perderam sua única fonte de renda.

No geral, a pandemia tem ocasionado o aumento de transtornos psiquiátricos como ansiedade, depressão e sintomas de estresse pós traumático. Mas pesquisa realizada pela Organização das Nações Unidas (ONU) aponta que as mulheres são as mais afetadas psicologicamente com a pandemia.

“A pandemia trouxe as famílias para dentro de casa, e isso significou trabalho dobrado para as mulheres. O que temos visto são mães que também trabalham fora exercendo inúmeros papéis como de dona de casa, professora, além do seu papel profissional. Então, além do cansaço físico essa “obrigação “ de ter que dar conta de tudo pode trazer para a rotina dessas mulheres, sintomas que prejudicam a saúde mental”, pontuou a psicóloga da rede ConVida, Mônica Castro.

Na avaliação da secretária estadual de mulheres do Partido dos Trabalhadores do Ceará, Fátima Bandeira, esse trabalho na verdade triplicou, pois também houve a necessidade de maiores cuidados com a higienização. “Antes a mulher fazia suas atividades em casa e saía para o trabalho. Com a pandemia e o trabalho remoto, ela que antes trabalhava cerca de 8 horas passou a trabalhar 12 horas em casa, para dar conta da produtividade. Fora isso, ainda tem os cuidados com o trabalho doméstico e com a educação dos filhos. Neste período, também aumentou a demanda com o serviço de limpeza e higienização das compras”, destacou.

Em boa parte dos lares, as mulheres não contam com um companheiro ou outra pessoa com quem podem compartilhar tarefas e aliviar o peso dessas atividades não remuneradas. Até mesmo quando há um cônjuge na residência, a carga de serviço doméstico tende a ficar concentrada nas mulheres.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelam a sobrecarga de trabalho das mulheres ainda em 2019. Segundo o estudo, enquanto que as mulheres dedicaram, em média, 21,3 horas semanais a afazeres ou cuidados de parentes, os homens só empenharam 10,9 horas nesse tipo de tarefa. Quando somadas as jornadas de trabalho, as mulheres trabalharam 3,1 horas a mais do que os homens. Este ano, o número deve ser maior.

Essa cobrança da sociedade para que a mulher dê conta de ser mãe, filha, esposa e profissional tem gerado algumas consequências ao seu estado mental. Com a pandemia, além de toda essa pressão para dar conta de tudo, ainda há o sentimento de medo, preocupação em manter os seus familiares em segurança e longe do coronavírus.

E o que acontece muitas vezes, é que por estarem cuidando de todo mundo, acabam não tendo tempo para cuidarem de si mesmas. Dessa forma é importante ficar atento aos sinais e indícios que possam agravar o estado psicológico.

Mudanças significativas no comportamento e na rotina são alertas para o surgimento de psicopatologias como depressão, síndrome do pânico e ansiedade. Outros sinais também servem de alerta São eles:

  • Perda de interesse em atividades antes prazerosas
  • Cansaço
  • Autocuidado prejudicado
  • Mudanças nos padrões de alimentação e sono
  • Isolamento
  • Também se deve observar frases como, “Eu prefiro estar morto”, “Não posso fazer nada”, “Eu não aguento mais”
  • Insônia
  • Irritação
  • Dificuldade de concentração
  • Compulsões
  • Consumo excessivo de álcool e remédios

A psicóloga Mônica ainda chama atenção para a situação das mulheres, vítimas de violência. “Não podemos esquecer as mulheres que se encontram em lares perigosos onde sua segurança e bem-estar estão comprometidos. O aumento da violência doméstica tem sido algo alarmante nesse período de isolamento social, e dentro desse contexto podemos ponderar outras demandas psicológicas, como estresse pós-traumáticos, baixa auto-estima, falta de confiança e medo intenso. Distúrbios sexuais e do humor também são psicopatologias encontradas em mulheres que sofrem abuso. “, relatou.

Segundo Fátima Bandeira, na maioria dos casos, essa violência já existia, mesmo que de forma verbal, psicológica, mas com a pandemia e o confinamento, ela foi intensificada.

Em qualquer sinal de violência, as mulheres podem procurar auxílio através do número 180. Hoje há também a campanha Sinal Vermelho, no qual a vítima sinaliza com um “X” vermelho na palma da mão, que está em situação de violência para os funcionários de farmácias.

No caso do atendimento psicológico, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) fazem esse tipo de acolhimento e o direcionamento para o tratamento adequado. As universidades públicas e particulares da Capital também oferecem atendimento psicológico gratuito.

Foto: Correio Brasiliense