Assintomáticos podem ser os principais responsáveis pela manutenção da rede de reprodução do vírus da covid-19, diz especialista

04/09/2020 - Marcelo Raulino

O paciente assintomático, apesar de ter uma menor carga viral que o sintomático, mantêm o vírus viável por mais tempo.

Movimentação de pessoas nas ruas de Fortaleza

As pessoas infectadas com covid-19 que não apresentam sintomas, as chamadas assintomáticas, são provavelmente as principais responsáveis pela manutenção da cadeia de reprodução do vírus na sociedade. A afirmação é do médico infectologista, Guilherme Henn, presidente da Sociedade Cearense de Infectologia (SCI). Segundo ele, duas razões confirmam essa avaliação. Primeiro, é que o paciente assintomático, apesar de ter uma menor carga viral que o sintomático, mantêm o vírus viável por mais tempo, portanto é passível de transmissão por um período geralmente maior. Em segundo lugar, como não fica isolado e ele tende a ter contato com outras pessoas com mais frequência, possibilita a contaminação.

Segundo um estudo da Soonchunhyang University Seoul Hospital, na Coreia do Sul, os pacientes assintomáticos com covid-19 continuaram a testar positivo para o vírus por até 18 dias após o diagnóstico, um pouco menos do que os 20 dias para aqueles com sintomas. A questão é que o mesmo estudo detectou que nos assintomáticos, a quantidade de vírus diminui mais lentamente do que nos que apresentam sintomas. Outro resultado encontrado é que pacientes assintomáticos também apresentaram disseminação viral por pelo menos 30 dias após o diagnóstico confirmado. Nesse estudo foram analisados exames de 303 pacientes com covid-19 sendo que 81% deles não apresentaram sintomas no momento do diagnóstico.

Sequelas

Mas quais os danos a covid-19 pode causar em assintomáticos? A resposta foi dada por outro estudo internacional, desta feita, realizada na cidade de Wuhan, onde teve início a infecção mundial. O levantamento descreveu mudanças patológicas nos pulmões em tomografias computadorizadas feitas em pacientes completamente assintomáticos. Foram detectadas lesões com inflamação do tecido pulmonar, que não são específicas da infecção por Sars-CoV-2 e podem ser vistas em muitas outras formas de doença pulmonar.

Cuidados

Para o infectologista Keny Colares, uma das grandes dificuldades de controlar a doença, hoje, é exatamente devido a transmissão a partir de assintomáticos. “Quando a pessoa sente os sintomas, ela naturalmente tende a se recolher, já os que não sentem nada não têm o mesmo cuidado. Esse individuo sem sintomas é dividido em duas situações; os sem sintomas, porque não desenvolveram ainda, mas que vão desenvolver os sintomas, que representam 15 a 20% dos casos, e os que não vão desenvolver sintomas de jeito nenhum. Os assintomáticos são os que mais transmitem, por isso a importância de todos utilizarem mascaras e tomarem os demais cuidados, indicados pelas autoridades de saúde”, afirma.

A recomendação da médica infectologista, que atua no Hospital São José, Terezinha Silva Leitão, é que os pacientes assintomáticos com diagnóstico de covid-19, mantenham o isolamento social em casa e os mesmos cuidados daqueles que apresentam os sintomas, como uso de máscara ao sair de casa, manter o distanciamento social e uso de álcool gel. Com relação ao tratamento medicamentoso, ela orienta que não seja utilizado nesses pacientes. “Você só deve tratar o doente, tratar no sentido de aliviar sintomas, porque não temos no Brasil nenhum antiviral que trate covid-19”, ressalta.

Segundo ela, existe uma diferença entre infectado com sintomas (doente), do infectado sem sintomas (sem doença). “O assintomático (sem sintomas) só transmite. Se tivéssemos alguma medicação que servisse, esse até seria um bom estudo, saber se vale a pena tratar assintomático para diminuir transmissão. Mas não tem esse remédio. A vacina poderá impedir o surgimento desses assintomáticos, porque os anticorpos destruiriam o vírus e não deixariam ele proliferar no organismo humano a ponto impedir a transmissão”, pontua.

Sintomas leves

Além dos sintomáticos e assintomáticos, existem também os pacientes oligossintomáticos, que são àqueles que apresentam poucos sintomas, mas que não evoluem. Estudos mostram que o período de incubação, a partir do contato da pessoa com alguém infectado até a manifestação do quadro, pode levar de cinco a 14 dias. Nesse período, os cinco primeiros dias são os de maior risco de transmissão. Dentre as pessoas que entraram em contato com o vírus, 80% apresentará quadros leves (oligossintomáticos) ou nenhum sintoma (assintomático) e 15% terão sintomas moderados e 5% sintomas graves.

Com relação aos casos graves, há situações em que 50% dos pulmões são afetados, o que pode ocasionar insuficiência respiratória com necessidade de oxigenação por método não invasivo e nos casos mais graves, pode ser necessário o uso de ventilação mecânica. Também há casos de acometimento do sistema nervoso central ou periférico, sendo as manifestações mais frequentes; dor de cabeça, tontura, alteração de nível de consciência, anosmia, hipogeusia e ageusia, e que já foram descritos casos com acometimento do coração – provocando arritmias e miocardite, lesões de pele, rins e alterações na coagulação.

Foto: Érika Fonseca