Setembro Amarelo e os desafios para o idoso durante a pandemia

02/09/2020 - Anna Regadas

Familiares devem estar atentos aos indícios e buscar profissional para tratamento adequado.

Um cenário comum no centro, em especial na saudosa Praça do Ferreira, é ver idosos sentados nos bancos, jogando conversando fora e lembrando dos seus tempos “áureos”. A memória ainda vívida carrega toda uma história de vida, que perpassa as mudanças advindas com o tempo. Em meio à pandemia do coronavírus, os idosos tiveram que permanecer isolados e aquele passeio de rotina ao coração da cidade teve que ser interrompido.

Por se tratar de grupo de risco, eles ficaram “presos” dentro de casa ou em casas de repouso, alguns sendo privados até mesmo do convívio familiar para não serem expostos ao risco de contaminação pelo novo coronavírus. Mas essas mudanças também ocasionaram o desenvolvimento de uma série de problemas mentais, como ansiedade, estresse, síndrome do pânico e depressão; algumas resultando no suicídio. Quadros como esse servem de alerta para os familiares redobrarem os cuidados com os idosos neste período, não somente em relação ao estado físico mas também com o mental.

Segundo a presidente do Departamento de Gerontologia do Ceará, da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), Silvana Sucupira, a falta de atividade e convivência social são fatores que desestruturam um indivíduo, principalmente o idoso. “Os idosos sentem falta do convívio, da rotina anterior, dos encontros, das aulas de hidroginástica, do pilates, das oficinas de memória, dos grupos da igreja. E essa falta da rotina desorganiza o individual, pois nós acordamos todos os dias com o intuito de fazer algo”, afirmou.

A psicóloga da rede ConVida, Mônica Castro, aponta que a depressão e ansiedade são as doenças que têm se destacado durante esse período. “O distanciamento social pode ser um pouco mais complexo para os idosos. Muitos deles tiveram sua rotina totalmente modificada e a falta de interação social que é tão importante nessa fase da vida pode de fato trazer ou atenuar processos psicológicos. A quebra da rotina, a falta de contato com o mundo exterior podem gerar episódios depressivos. A solidão e o medo são ingredientes preocupantes a serem observados nesse grupo de pessoas especificamente”, ponderou.

Dentre os sinais que podem indicar um quadro depressivo estão: falta de motivação para o autocuidado, transtornos de sono (dorme demais ou de menos), transtornos alimentares (come demais ou de menos), tristeza frequente, nervosismo, falta de interesse, apatia, reclusão, entre outros. Para evitar que a situação chegue a esse ponto, a gerontóloga explica que é preciso criar uma nova rotina, mesmo que dentro de casa e que contemple todas as necessidades do idoso.

Logo é fundamental que o idoso tenha os horários definidos para sono e vigília, que realize atividades físicas e cognitivas, que mantenha o contato com amigos e familiares mesmo que seja através de ligações por vídeo, que cuide da alimentação, mas que também pratique atividades de lazer, como assistir filmes, ouvir músicas, desenhar, pintar quadros, escrever. As atividades físicas podem ser monitoradas por fisioterapeuta ou educadores físicos a distância e as atividades cognitivas podem ser aplicadas por Terapeuta Ocupacional.

Além disso, o apoio da família é fundamental. “A família precisa ter empatia, paciência, disponibilidade e principalmente amor. O maior remédio é a atenção, a sensação de pertencimento, a certeza de que é querido e não um peso”, afirmou Silvana.

O Governo do Estado também desenvolveu uma cartilha que fornece orientações para idosos, cuidadores e instituições de longa permanência na epidemia da Covid-19. O material traz de forma didática, alguns direcionamentos sobre os cuidados que devem ser adotados para evitar o desenvolvimento de possíveis problemas mentais.

Outras mudanças na vida dos idosos desencadeadas pela perda do companheiro(a), também podem contribuir para o surgimento de psicopatologias. A gerontóloga Silvana evidencia que há casos de pacientes que passaram por essa perda agora na pandemia e que sofreram ainda mais pelas mudanças de rotina impostas pelos familiares.

“O idoso quando fica viúvo perde um parceiro da vida toda. São 50, 60 anos juntos. Mas a viuvez também traz outras perdas. Por vezes perdem a casa, vão morar com um dos filhos. Perdem o controle das finanças, ou tem a renda diminuída. Perdem a autonomia, pois todo mundo acha que pode mandar na vida deles e passam a ser hóspedes na casa de um dos filhos. Eles passam a seguir outra rotina, outras regras. E tudo isso por que geralmente os filhos acham que devem levar o pai/a mãe viúvo para sua casa, para não deixá-lo sozinho. Porém as vezes isso pode ser pior”, alertou.

É importante que os familiares fiquem atentos ao primeiro sinal de tristeza, desânimo, falta de energia, pensamentos negativos, falta de esperança e mudanças no comportamento. E identificado qualquer indício, que procure o apoio de um profissional médico para que ele possa diagnosticar possíveis transtornos mentais e oferecer o tratamento adequado.

“A princípio se deve observar a frequência e a intensidade desses episódios, se eles se repetem em curto período, se têm se intensificado desde o surgimento dos primeiros sintomas. Então a orientação é que se observados o agravamento ou aparecimento desses sintomas um psicólogo seja consultado. Hoje os profissionais da psicologia estão fazendo o atendimento online, o que facilita a não exposição desse idoso ao vírus”, explica a psicóloga Mônica.

Quanto ao tratamento, em grande parte das patologias, consiste no
acompanhamento terapêutico, e observando a necessidade, o psicólogo pode fazer a indicação de psiquiatria para a prescrição de medicação, se for o caso.

Foto: Mateus Dantas