Curiosidades

CACHAÇA COMPRA PALÁCIO

A Câmara de vereadores de Fortaleza, no final do século XVIII, com as rendas do chamado "Imposto da Cachaça" desapropriou um palacete residencial, para alí edificar a sua sede oficial e própria. O Governador do estado de nome Luiz da Mota Féo e Torres (1789/1799), enciumado, pois tal pompa seria apropriada para um palácio para Governador e não para Vereadores, apoderou-se militarmente do prédio, apropriou-se para o estado, transformando-o no Palácio do Governo e residência governamental.
Veio a ser o Palácio da Luz, até mudar-se para o Palácio da Abolição, na Rua Barão de Studart. Já no primeiro Governo de Tasso Jereissati, a sede governamental passou a ser o Cambeba.
(Fonte: Anuário do Ceará 1996/1997).

OS BORÓS

O boró, criação genuína e fundamentalmente cearense, nasceu, nos tempos dantanho, quando havia, então, absoluta falta de troco.
E que vinham, enfim, a ser os tais borós?
Eram pequeninos vales, que circulavam atribuindo-se-lhes o mesmo valor das moedas, e que eram aceitos, como se fossem, na verdade, de feição legal. Encheram toda uma época e tiveram, assim, a sua história deveras interessante, dentro da vida comercial do Ceará. Foram emitidos a torto e a direito. Grassou como que uma verdadeira epidemia de borós. Qualquer um se achava com o direito de lançá-los. E surgiram "à bessa", pletoricamente, de todos os formatos, de todos os tamanhos, impressos e escritos a mão, bonitos e feios, coloridos e de uma só cor, todos valendo ora 100 ora 200 réis e ensaiaram resolver a difícil questão do troco.
Os borós que circularam com melhor aceitação foram os emitidos pela Câmara Municipal de Fortaleza, em 1896, sendo intendente Guilherme da Rocha, para custear por 360.000$000 a construção do mercado de ferro, o mesmo que há muito foi desmontado. Dentro de uma, quando da oposição da pedra fundamental, dizem os da época, Guilherme Rocha ajuntou um punhado desses vales, amarrou-os, e escreveu por fora a seguinte frase: "Com isto, fiz isto".
Havia borós muito curiosos, não só curiosos como também muito pitorescos. A propósito de tudo, e mesmo sem propósito algum, apareciam borós, cujos dizeres eram, mais ou menos, os seguintes, às vezes escritos pelo próprio punho do emissor: "João Pinto deve ao portador por falta de troco quinhentos réis (a) João Pinto. Massapê. Estreito." Ou ainda: "A Comissão do Comércio abaixo assinada garante ao portador deste a quantia de 100 réis. Baturité, setembro de 1893. Bernardino Proença. Raimundo Maciel. Francisco Antônio. João Ramos da Silva. João de Pontes Medeiros. Marques d'Oliveira". E bem no alto a figura de uma gaiola do Amazanas.
Ou ainda com um simples carimbo, onde se lia: "Fernandes do Amaral. Devo cem réis. Milagres-Ceará".
O mais das vezes o vale era despido de qualquer prolixidade: "Vale um quilo de carne", e com estes simples dizeres corria a praça, tendo o seu valor.
Ainda emitiram borós as companhias de bondes de burro: Empresa Ferro Carril do Ceará, Empresa Ferro Carril do Outeiro e Companhia de Bondes de Parangaba.
Certa vez, - contou-me o prof. Dias da Rocha, - um vendedor ambulante da feira de Fortaleza inventou, como toda gente, borós de sua emissão, com a seguinte e pitoresca inscrição: "Vale este uma tigela de arroz-doce" e a coisa chegou aos ouvidos do intendente, que proibiu a circulação dos mesmos e determinou seu recolhimento pelo negociante, pois só os da Câmara tinham, então, valor circulatório. Aquele, porém, a proporção que os recebia, depositava-os na lata do lixo. A meninada esperta descobriu a mina e toca a comer arroz-doce, gratuitamente, com os vales, que, por inadvertência do pobre vendedor ambulante, voltavam a circular.
O ingênuo negociante bateu quase às portas da falência...
E por falar em bancarrota, muita gente boa chegou à mesma situação por emitir borós, sem possuir o necessário lastro e o resultado era fatal: o resgate não se dava.
Eusébio de Sousa narra-nos, a propósito, o seguinte caso: "Em Baturité, um proprietário de sítio, chamado Clementino Holanda, para facilitar o pagamento dos seus assalariados, emitiu boró a quando pôde. Em partidas mais que "dobradas": quadruplicadas. Mais tarde, ou porque não fosse oportuna a época da quitação, ou porque o "lastro"não fosse suficiente, tal resgate não se deu. Veio o descrédito. Ninguém queria aceitá-lo. E a mofina surgiu. Até um cego, pedinchão, que esmolava em Cangati, cantarolava ao pé da viola:
Eu peço por caridade
Pelo seu Senhor Divino...
Eu só não quero boró
Que seja do Clementino...
Os borós tiveram sua época de fastígio e, depois, com os anos, ficaram desacreditados. Tendo sua origem no Ceará, os borós, todavia, foram copiados, por alguns dos Estados brasileiros, entre os quais Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Bahia e Minas Gerais, que também os emitiram, larga e profusamente.

FONTE: Raimundo de Menezes
Coisas que o Tempo Levou
P.73-75.

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