A Câmara Municipal de Fortaleza realiza nesta segunda-feira (16), as 19h30min, Sessão Solene em Homenagem aos 90 anos da Paróquia Nossa Senhora das Dores no Bairro Otávio Bonfim, bem como, os 90 anos da presença dos franciscanos naquele bairro. A solenidade foi proposta pelo vereador Michel Lins (Cidadania), por intermédio do requerimento 3825/2019, aprovado por unanimidade pelo plenário da casa.

A Igreja de Nossa Senhora das Dores. inaugurada em 1932, foi uma parte do investimento dos Frades Franciscanos, que além desta construíram, ainda, o Convento de São Francisco e o Cine Familiar. Segundo a história, o Convento de São Francisco chegou a ser invadido por um dia durante a Segunda Guerra Mundial, pois os frades eram alemães. Naquele período propriedades de famílias alemãs (família Lundgren), famílias italianas (família D’Francesco) e famílias japonesas (família Fujita) sofreram represálias da população de Fortaleza.

Conforme a justificativa do requerimento, a Igreja das Dores, com 90 anos, apresenta uma rica e bela história, semelhança de outras que se construíram a força da fé e da devoção particular e coletiva. “As gerações mais novas que passam, ou residem no bairro de Otávio Bonfim e adjacências, e olham a igreja com a habitualidade com que os olhos se acostumaram, ignoram a história do templo e de como ele nasceu para servir de guia, para aquele antes atrasado e inexpressivo meio. Pretendemos contar um pouco desses fatos para os jovens que amam a sua cidade, mas desconhecem, a falta de maiores dados, o início das coisas que veem e admiram. Afinal o amor não é fruto do grande conhecimento ou sé se ama verdadeiramente bem aquilo que bem se conhece?”

Histórico

“Recuemos 90 anos no tempo. Vamos assistir ao lançamento da pedra fundamental da Igreja de Nossa Senhora das Dores, que sucedia a antiga capela de São Sebastião levantada na praça a que deu seu nome, depois soerguida na antiga Estrada do Gado, hoje rua Dr. Justiniano de Serpa. É uma primeira sexta-feira de 1° de março de 1929 a local esta apinhado de curiosos, de gente humilde das redondezas, que aguarda a chegada das autoridades. Bandeirinhas fincadas em postes dão um tom festivo ao ambiente. De um lado, pilhas de tijolos indicam que a obra tera inicio em breve”.

“Para a cerimônia vão chegando, além do monsenhor Antônio Tabosa Braga, vigário da freguesia de Nossa Senhora do Carmo e vigário-geral da Arquidiocese, representantes dos R. R. P. P. capuchinhos, lazaristas, jesuítas. irmãos maristas e do Seminário Maior, representantes do governador e do prefeito. Todos aguardando, ansiosos, a chegada do excelentíssimo reverendíssimo senhor arcebispo metropolitano do Ceará (assim se escrevia naquela época), Dom Manoel da Silva Gomes, a quem caberá benzer solenemente a primeira pedra da Igreja de Nossa Senhora das Dores e a do Convento de São Francisco de Assis. conhecido posteriormente e popularmente, por Convento de Santo Antônio”.

A banda da Polícia executa dobrados em honra dos festejos. “Numa caixa-forte colocada ao lado do poente, debaixo da porta principal, um metro abaixo do nível do chão, ficaram depositados: o documento com as assinaturas, atestando a solenidade da colocação da primeira Pedra, os jornais do dia e diversas moedas. Da mesma forma está na esquina do sobrado do Convento, ao lado poente, a caixa-forte com os documentos que se relacionam ao ato da primeira benção da Primeira Pedra do Convento”.

Dos doadores

Todos sabem e comentam, até muito depois, que a Igreja das Dores e o Convento de São Francisco foram frutos, principalmente, da obra caritativa e de grande zelo de Dom Manuel da Silva Gomes que envidou todos os esforços para a vinda dos franciscanos menores para Fortaleza, inclusive fazendo-lhes a doação gratuita “in perpetuam” de extensa área medindo 110m x 100m, ou quinhentos palmos sobre quatrocentos e cinquenta palmos, para a construção da igreja e do convento anexo. Também não esquece a figura excepcional de Dom Antônio Xisto Albano, bispo de Bettisaida, de santa memória, o qual deixou legado de trinta contos de réis em testamento para emprego em alguma obra pia ao alvitre do Sr. Arcebispo de Fortaleza que achou por bem utilizá-la na construção do referido convento.

“Esta quantia, acrescida dos juros no valor de CrS 16.000$000 (dezesseis contos de réis) foi pela livre e espontânea vontade de S. Exa. Revma. Snr. Manoel da Silva Gomes, destinada a construção do convento e somada com a fornecida pela Província (34.777$000) trinta e quatro contos, setecentos e setenta e sete mil reis, estipulada pela firma construtora Odebrecht e Companhia, domiciliada em Recife, Pernambuco, representada pelo Sr. Dr. Engenheiro Civil Armando da Paixão Carneiro Campelo e João Ignácio Cabral de Vasconcelos Filho. Aos vinte de fevereiro de mil novecentos e vinte e nove, o Snr. Arcebispo, D. Manoel da Silva Gomes com os mesmos srs. Arquitetos referidos assinaram a construção da igreja de N. Senhora das Dores, orçada em cento e cinquenta contos, setecentos e setenta e sete mil reis (150.777$000), de cimento armado, como bem a do convento.”

“O outro benemérito da construção do templo dedicado a Nossa Senhora das Dores foi monsenhor Liberato Dionysio da Costa, protonotário apostólico, grande devoto de Nossa Senhora das Dores, o qual, dos seus proventos e trabalhos, ofereceu ao Revmo Snr. Ordinário Arquidiocesano a doação de oitenta contos de reis a que ajuntou, ao correr da construção, mais dois contos de reis, “de sorte que o Snr. Arcebispo teve de completar a quantia contratada com sessenta e oito mil, setecentos e setenta e sete mil reis”.

O Bilhete do Monsenhor

“Descrevendo o mistério da oferta de 80 contos de réis, conta o monsenhor que há anos, ainda simples padre, foi interpelado pela Sra. Dona Virgínia Salgado, zeladora da Confraria de Nossa Senhora das Dores, se não queria entrar na relação de compra de um bilhete da loteria em beneficio de uma capela em honra a Nossa Senhora das Dares. A pergunta; quanto custava o bilhete. respondeu a zeladora: dois mil reis, e se Ela apoiar a lembrança dê o bilhete premiado. Pois bem, se quiser pode comprá-lo. retrucou o padre. A tarde o bilhete saiu premiado com oito contos. Esta quantia foi emprestada a diversos comerciantes, pessoas conhecidas e amigas do sacerdote de forma que em 1929, apresentou o avultado capital de oitenta contos de reis”.

Os construtores

“Frei Odilon Gelhaus e Frei Lucas Vonnegut foram os dois grandes construtores do templo e do convento. O primeiro não pode concluí-los por motivos de saúde. Ainda nos inícios da construção, frei Odilon morava gentilmente na residência dos Frades Capuchinhos da Província Lombarda. Foi contemporâneo de Frei Marcelino de Milão, frei Silverio, frei Mansueto, frei Cyrilo, frei Bernardo de Viçosa, frei João Maria. Faleceu em 22 de janeiro de 1930, aos 59 anos de idade, estando sepultado no Cemitério de São João Batista, em sepultura de 1° plano cedida pelos frades capuchinhos”.

“Aos 25 do mesmo mês e ano chegava a Fortaleza, para continuar as obras, frei Lucas Vonnegut. no dizer de Pedro Cruz, que conheceu, exemplo de perfeito discípulo do “poverello de Assis”. Veio de Caninde, onde era superior interino do convento. No Livro de Tombo n. 01 acha-se registrado: “Digna de encômio foi a dedicação da população de Otávio Bonfim que, generosamente, se incumbiu de carregar areia, a noite, até a altura interior da sapata, sendo mais ou menos 50m2 de enchimento”. Depois se diz que o povo não e bom… “Cooperou também com um mil reis mensais para aquisição de bancos para a igreja”.

Outras ofertas

“A prova disso são também as doações de fiéis. A porta principal da igreja, por exemplo, foi oferta de Dona Ângela Valente. Em lembrança de sua sobrinha D. Ana Valente, mandou vir da Itália a imagem de Nossa Senhora das Dores. O Sr. Joaquim Antônio Albano, sobrinho do falecido D. Xysto Albano, em pagamento de uma promessa, faria construir uma capela em honra de Nossa Senhora de Lourdes, no Alagadiço. Não podendo, no entanto, concretizá-la, em razão de motivos particulares e superiores, ofereceu o ladrilho mosaicado para toda a igreja. bem assim os degraus de marmorite do presbitério, da mesa da comunhão e dos altares laterais. Ofereceu ainda o harmônio e de sua irmã Lili uma cômoda para a sacristia”.

“A Sra. Alfredo Salgado, filha de Sra. Virgínia Salgado, iniciadora também da igreja em virtude da compra do bilhete, fez a valiosa oferta de sete vitrais em cores, representando as sete Dores de Nossa Senhora. Custaram dez contos de reis e foram desenhados e fabricados no atelier do Sr. Henrique Moser, residente no Recife. Hoje, um desses vitrais foi quebrado por forca de bolas jogadas por alunos do Colégio Pe. Champagnat, e substituído por material inferior, em razão do elevado custeio da reposição”.

A Festa da benção

“Também não se há de esquecer a memorável festa da benção da Igreja de N. Sra das Dores. Os que assistiram ao lançamento da pedra fundamental, no ano anterior, sob uma manhã chuvosa de março, sai os mesmos que agora se aglomeram no interior da pequenina capela. É o dia 13 de junho de 1930. dia de Santo Antônio, igualmente como São Francisco. santos de grande predileção dos cearenses. Aliás, estes dois grandes taumaturgos são as vigas mestras que sustem e edificaram aquele grande templo católico”.

“Todo o esforço, todo o trabalho, toda a imensa obra construída ao longo dos anos, fez-se sob a inspiração e a fé do filho de Assis e o de Lisboa. Pois bem, naquele dia, com a igreja repleta, houve a benção solene das Dores. Monsenhor Antônio Braga, acolitado pelo também Monsenhor Liberato Dionysio da Costa, foi o oficiante. Como lembrança da grande data, o Cel. Antônio Porto ofereceu uma ambula grande de prata dourada, no valor de 500$000 réis. Já a imagem da padroeira, mandada vir da Itália pelo Monsenhor Liberato, foi introduzida e benta no dia 15 de setembro daquele ano. Festa de Nossa Senhora das Dores. A igreja, como da vez anterior, estava literalmente cheia. O doador foi o oficiante também dessa cerimônia. Em novembro, Frei Lucas Vonnegut, continuador da obra de Frei OdiIon, era nomeado superior da residência de Fortaleza”.

Um Parêntesis

“Aqui, abre-se um parêntesis para uma justa observação: — no capítulo anterior, na parte referente ao contrato de construção da igreja, assinado entre a firma Odebrecht e o Arcebispo, representada a primeira pelo srs. Armando da Paixão Carneiro Campelo e João Ignácio Cabral de Vasconcellos, responsáveis pela construção do novo templo, deixou de ser citado o nome do arquiteto licenciado, hoje octagenário, José Barros Maia, conhecido popularmente por Mainha, residente na rua Senador Pompeu. n° 988”.

“Foi este senhor o responsável pela confecção da planta da Igreja das Dores. Cartão de visita em seu poder, do punho do escritor e assinado pelo engenheiro Campello no qual cobrava de Mainha a planta da igreja do Alagadiço o comprova, isto porque se chamava, aquela região das circunvizinhanças do Alagadiço e também ‘cercado do Zé do padre’. Fica assim feito o devido registro. Fechado o parêntesis que se impunha a história, continuemos avançando”.

“No ano de 32, por ocasião das festas comemorativas do sétimo centenário da morte de Santo Antônio. o Arcebispo D. Manoel autorizava, atendendo a requerimento do Superior, a fundação, na Igreja das Dores, a distribuição de pães e de mantimentos pela Pia União de Santo Antônio (Pão dos pobres). Atualmente, 100 famílias aproximadamente 500 pessoas são assistidas semanalmente coma distribuição de pães e mantimentos pela Pia União. Uma lista de pessoas sabidamente carentes foi levantada pelos vários grupos de ação social existentes na paróquia, com o fim de impedir a ação dos aproveitadores, dos falsos mendigos et caterva”.

“Outras Associações e irmandades, como a do Apostolado da Oração e a Conferencia de S. Vicente de Paulo são anteriores a própria igreja das Dores, tendo sido criadas ainda ao tempo da capela de São Sebastião, como é o caso do Apostolado da Oração, criado a 15 de agosto de 1924, pelo Padre Gumercindo Sampaio, e da Conferencia Vicentina que o precedeu, pois foi instalada ern 23 de novembro de ano anterior, sendo a sessão presidida pelo mesmo Padre Gumercindo e pelo Barão de Studart, secretariada pelos confrades Antônio Paulino Delfim e Henrique Júnior”.

A benção dos sinos e altar-mor

“No dia 18 de novembro de 1932, as 8 horas de uma manhã de domingo, seria dada a benção dos sinos e do altar-mor. D. Manoel da Silva Gomes, o oficiante. A igreja cheia. Entre outros religiosos que o acolitariam, serviram de paraninfos Mons. Liberato Dionysio da Costa, Cel. Juvenal de Carvalho, Dr. José Leite Gondim, Manoel dos Santos, Joaquim Antônio Viana Albano, Francisco Ângelo, Antônio Diogo de Siqueira, Eurico Salgado, Ângelo Ratacasso, Cel. Antônio de Matos Porto, e mais alguns não nomeados. O Exmo. Sr. Cel. Juvenal de Carvalho e sua Exma. consorte, D. Maria Joana Carvalho — assim consta no Livro da Crônica — foram os generosos donatários do altar-mor de mármore, desenhado pelo Sr. Joel Vasconcellos, desenhista da empresa Odebrecht e executado nas oficinas da marmoraria Gondim, na rua Barão do Rio Branco, pelo valor de 15 contos de reis.”

“Operários que fabricaram — Heitor Marques e Antônio José Alves. Na pedra do altar foram depositadas relíquias de S. Mauricio, S. Clemente, S. Victor, S. Nazário e Santa Theodora”. Este valioso altar já não existe mais. Cedeu lugar voragem das mudanças, do novo. Foi, ao que dizem, retirado a força das picaretas. Construído um novo altar-mor, por ocasião da reforma da igreja — extraordinariamente imponente — um rochedo colossal encimado da Santa Cruz do Divino Crucificado e a imagem de N. Sra. das Dores, excelsa padroeira, aos pés de Jesus”.

Este, por sua vez, cedeu lugar a um novo e terceiro altar-mor. Assim diz o livro na parte referente ao ano de 1967: “Foram concluídos os trabalhos da capela-mor com a demolição do altarmor e colocado um altar de madeira com Ferro, revestido de formica e assim, de agora em diante, as missas só poderão ser celebradas na capela, mas voltadas de frente para o povo”. Do altar primitivo, nem notícia. Do segundo “extraordinariamente, imponente, um rochedo colossal…” nada se sabe. O terceiro este lá de fórmica e de madeira envernizada, como convêm a Igreja dos pobres.

Os Sinos

“Os sinos da Igreja das Dores vieram da Alemanha, por intermédio da firma então existente nesta praça, Saunders, Barbosa & Cia., e receberam os nomes de São Sebastião. o médio, de N. S. das Dores. o maior; e de São José, o menor, o que não é demérito algum para o santo padroeiro do Ceará, sabido que, pela lei de seu Filho, os últimos serão os primeiros, e os menores os maiores no reino de Deus. Após a solenidade da benção dos sinos e da consagração do altar-mor, houve missa cantada, sendo oficiante o Ver. Frei Lucas. O coro do Seminário fez-se ouvir. E naquele dia sem dúvida, todos saíram edificados”.

Foto: Érika Fonseca